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Cidadania e Sociedade

UMA ÚLTIMA VEZ

José Castro

Vivemos tão centrados nas rotinas do dia-a-dia que damos tudo como adquirido. Pensamos que a situação atual se vai perpetuar ao longo do tempo. Afinal viver é o somatório de tudo aquilo que fazemos pela primeira vez até à …última vez! Pela primeira vez fomos para a escola primária, ou atual 1º ciclo, mas houve um dia que foi a última vez… que provavelmente se tornou na primeira vez que fomos para o 2º ciclo…pela primeira vez fomos para a universidade e algum tempo depois houve uma última vez… pela primeira vez tivemos um emprego e vai haver uma última vez nesse emprego! Quando pensarmos que tudo tem uma última vez, vamos dar um valor superior a cada momento que estamos a viver. Afinal, o momento presente é o que vale, é o único onde se pode pensar, sentir e agir. Por mais trivial ou profundo que seja esse momento, um dia também ele vai ser o último! Esta consciencialização de finitude poderia levar a uma sociedade mais pacífica, tolerante, ética e igualitária. Todos somos geradores de paz ou de conflito para connosco ou para com os outros seres, a cada momento. Do somatório do que foi criado iremos ter a maior ou menor perceção de “felicidade” e entusiasmo de Viver.  

Claro que o leitor já pensou que se estamos a vivenciar uma situação que provoque sofrimento intenso pela primeira vez, desejamos que rapidamente chegue a sua última vez. A preservação do nosso bem-estar integral deve-nos levar a ações que sejam minimizadoras ou inibidoras desse sofrimento. Questão mais complexa é reinterpretar o sofrimento, mobilizando em nós saberes “escondidos” que potenciam a resiliência e permitem dar a volta por cima! Pois afinal, até esse sofrimento vai ter uma última vez.  

A hipótese pessimista de que tudo tem “uma última vez”, poderia levar à inação e ao desejo de nem sequer procurar ter uma primeira vez! Claro que é uma hipótese, mas que provavelmente não permitiria satisfação em viver! Prefiro a hipótese otimista! Ou seja, quanto mais depressa fizer acontecer a “primeira vez” daquilo que desejo, alegadamente será maior o intervalo até chegar à última vez. Então, a perceção de que valeu a pena Viver será assim mais intensa. Enquanto cá está dê uso aos seus “talentos” e realize-se pessoal e profissionalmente. Mas igualmente haverá uma última vez! 

Mas será como mencionei que tudo tem uma última vez? Tudo o que é biológico ou material tem sim, uma última vez! Um dia, tudo vai ter uma última vez. Vemos isso acontecer todos os dias, com ou sem pandemia! Para todos nós um dia vai ser a última vez! Questão interessante é saber aceitar pacificamente essa última vez para os nossos entes mais queridos, assim como para nós próprios 

E o que resta afinal? Tudo aquilo que não é biológico ou material! Desde já, distinguir Viver de Existir. Nesse sentido, pode terminar a vida biológica de todos nós, mas jamais deixaremos de existir. De igual forma, o amor que nutrimos por aqueles com que partilhamos nossas vidas, não se prende à vida material, mas à espiritual e prolonga-se infinitamente em todos os espaços/tempo. Apenas existe continuidade a de todos nós.  

O pânico que “uma última vez” do outro, ou nossa, nos podia causar, nada mais é de que uma “primeira vez,” de forma diferente e noutra dimensão. O desafio e a evolução continuam. 

Para muitos, tal visão não passa de uma fantasia! Mesmo que por absurdo, todas as hipóteses conhecidas sobre o fim da vida sejam falsas, tenhamos o discernimento de escolher a melhor “mentira” que que faz de nós seres mais autoconscientes, de elevada inteligência emocional e espiritual para com todo os Seres.

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