Home>Cultura, Literatura e Filosofia>“DOS MIL E UM FINS”
Cultura, Literatura e Filosofia

“DOS MIL E UM FINS”

“Houve, até ao dia de hoje, mil fins diferentes, porque houve milhares de povos. O que falta é a corrente unindo essas mil nucas, o que falta é um fim único. A humanidade não tem ainda um fim.
Mas dizei-me, meus irmãos, se a humanidade sofre por lhe faltar um fim, não será o caso que não exista ainda humanidade?”
Friedrich Nietzsche, Assim falava Zaratustra, Editorial Presença, página 63
Regina Sardoeira
Embora tenha escolhido, para epígrafe, este texto de um dos livros mais extraordinários de todos os tempos, isso não significa que o vá interpretar à luz da óptica nietzschiana.  Aliás, mesmo que o quisesse, provavelmente enganar-me-ia quanto às intenções de Nietzsche, de tal modo ele foi obscuro, polémico, eventualmente ambíguo.
Por outro lado, este livro foi escrito na segunda metade do século XIX. Ainda que a   voz que nele fala seja a de um profeta, será legítimo tentar compreender a humanidade actual (ou a sua ausência) à luz destas sentenças?
Quando observo o mundo à minha volta percebo desumanidade, percebo antagonismo, percebo gente falando uma quantidade inverosímil de linguagens, percebo palavras difundidas e imediatamente distorcidas na resposta de quem ouve. Quando reparo bem na gente que me cerca observo a necessidade de busca orientada para objectivos não-humanos, contrários e hostis à natureza, objectivos fúteis ou mesquinhos, objectivos vazios e desnecessários, mesmo para aquele que busca.
O mundo dos homens está desorientado, vai-se perdendo em múltiplas direcções, numa corrida insensata e contraditória: os que são apodados de loucos têm em si, não raras vezes, a semente da razão enquanto os outros, a turba, a maioria, a multidão, aqueles que seguem, sem pestanejar as ordens dos chefes, afundam-se no absurdo de que não ousam suspeitar.
Que poderão fazer os lúcidos, capazes de ler os hieróglifos nos interstícios da enxurrada palavrosa das maiorias, a não ser permanecer calados ou discursar vamente para surdos?
“A humanidade sofre por lhe faltar um fim” . De facto, são tantos e tão díspares os fins, os objectivos, a demanda, é tão virulenta a luta entre os povos (todos esses que, no limite das suas fronteiras se crêem superiores aos vizinhos), é de tal modo antagónica a linguagem com que se exprimem, que, no fundo, só resta uma porção grandiosa de equívoco e muito constrangimento.
Todos pertencemos à mesma espécie, esta que, a crer na investigação, elevou um dia o corpo do solo para se manter em posição erecta assente sobre os pés e de cabeça levantada. Somos HOMENS , os medidores das coisas, aqueles que, de entre todos os seres da natureza, puderam criar valores e atribuí-los ao mundo, em torno de si. Mas, ao longo dos séculos, fomo-nos ausentando da nossa essência comum, inventámos múltiplas finalidades que nos põem  de costas voltadas para os outros e logo, reciprocamente, para nós mesmos.
A ilusão é a nossa verdade, vivemos num mundo de sombras, como os prisioneiros da caverna de Platão, indiferentes ao repto dos que insistem em alargar a fenda sobre as nossas cabeças e quebrar os grilhões da nossa miséria. Não vemos, e temos medo que a claridade nos cegue, habituados que estamos à penumbra.
Nietzsche proclama: ” Não será o caso que não exista ainda humanidade?” Que se tenha perdido o elo de união entre as mil nucas dos mil povos? Que não haja entre as hordas dispersas dos habitantes da Terra o desejo de união numa mesma e vivificante finalidade?
Creio que, ao longo dos tempos, grandes homens quiseram restabelecer a unidade perdida. Pensei, bruscamente, em Beethoven e no vibrante hino da alegria da sua nona sinfonia. Ouvi o coro explodir em apoteose, clamando pela unidade, pelo abraço universal tão caro a Schiller e também a Beethoven. E soube que esse hino que quase todos conhecem e amam, mesmo quando não lhe entendem o alcance, ressoa profundamente nos homens porque representa o seu mais poderoso apelo.
E então regresso ao texto da epígrafe e lanço para os ares deste tempo (tal como Nietzsche fez no século XIX)  a inquietante questão com que termina o capítulo de Assim falava Zaratustra, “Dos mil e um fins” :
“Mas dizei-me, meus irmãos, se a humanidade sofre por lhe faltar um fim, não será o caso que não existe  ainda humanidade?”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.