Cultura, Literatura e Filosofia

LIGAÇÕES SALGADAS

António Coito

A viagem que vos trago hoje é outra. ‘’Ó mar salgado, quanto do teu sal / São lágrimas de Portugal!’’, exclamava o sujeito poético, no poema de Fernando Pessoa, em jeito de síntese das atribulações que o mar nos deixou – as vidas perdidas, os marinheiros que foram vítimas de naufrágios ou que morreram pelo contacto com outros povos e pela irreverência marítima. Assim, através da metáfora destes dois versos, tomo o significado da palavra sal, na sua forma base, como fio condutor desta reflexão.

Se há coisa que aprendi na última semana é que o sal, para além de um excelente purificador, é um conservante de topo. Perguntai-vos onde terei ido buscar estas teorias?

Eu, que vivo tão perto das Salinas Naturais de Rio Maior, jamais estava à espera de apresentar este discurso e de descobrir o que descobri! Quando estamos perto de um local que já visitámos várias vezes, estamos sempre convictos que já descobrimos tudo ou que pouco há para investigar. A última semana serviu para desmistificar esta especulação.

Participei numa residência sobre Cinema documental. Adorei a experiência e os dinamizadores da mesma. Ambos licenciados na área e muitíssimo preocupados com a assimilação de conhecimentos do seu público. A atividade dividiu-se numa componente teórica, onde se fez uma abordagem ao cinema, à sua história e a tudo aquilo que envolve este meio (de referir a agradabilíssima tarde em que contactámos com alguns dos primeiros meios de fotografia e vídeo da história do cinema) e numa componente prática, que mobilizou a teoria previamente apresentada, e serviu de oportunidade para a colocar na prática e tirar eventuais dúvidas, bem como efetuar experimentações. O objetivo era chegar ao fim da semana e produzir um filme sobre as Salinas.

Como referi, acreditava que já conhecia bem o espaço e a sua história, mas estava enganado. Assumi o papel de realizador e adorei! Por momentos, esqueci a pandemia e relembrei os tempos antigos, em que se andava livremente a falar com pessoas, a procurar saber mais sobre certos temas e lendas. Foi uma semana inesquecível. A própria experiência exigiu que elaborasse a tão desejada árvore genealógica da minha família, por enquanto, apenas do lado pai, para que a minha investigação para o filme fizesse sentido, visto que tenho familiares de outras gerações ligadas ao local em análise. Obrigou-me a investigar, a ler, procurar, sentindo-me, por momentos, um pequeno investigador ou historiador.

Na verdade, mais uma vivência que contribuiu para o meu progresso pessoal, para a monitorização da minha inteligência emocional e desenvolvimento de soft skills. Pensando bem, mais um certificado para a capa da caixa transparente de tampa branca.

Já dizia Johann Goethe, ‘’Na plenitude da felicidade, cada dia é uma vida inteira’’, e assim tem sido desde o dia em que me lembro de existir, mesmo com as pedras que tenho recolhido pelo caminho. Ser feliz é isto, fazer aquilo que gostamos, genuinamente.

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