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SQUID GAME E ARQUITETURA

Mateus Oliveira 

Squid Game (O Jogo da Lula) é um dos assuntos do momento, por variadíssimas razões. A série da Netflix, um inquietante drama distópico sul-coreano, diz muito sobre alguns de nós e, consequentemente, conseguiu pôr-nos a refletir sobre problemas atuais que têm contribuindo para a decadência da sociedade.

Muito resumidamente, porque não é esse o intuito desta crónica, Squid Game articula dinheiro, poder, tempo, opressão, aparência e infantilização como elementos que mostram uma muito particular dimensão humana que, em situações de manifesta fragilidade, nos permite ir a jogo com a própria vida.

Se, também a mim, me fascina – inquieta e sobressalta – esse lado sociológico, é a extraordinária forma como a arquitetura surge como elemento potenciador – fundamental – de tudo o que a série transmite. Desde logo através da evidente dicotomia entre os espaços de jogo, amplos, limpos, minimalistas, coloridos e infantis, e os espaços de bastidores, cavernosos, subdimensionados, lúgubres e sombrios.

Mas, se é a incrivelmente detalhada atmosfera doce e infantil dos espaços de jogo que seduz de forma mais imediata, o que me prendeu efetivamente a atenção foi a escada labiríntica que estrutura todo o espaço. Desde logo porque, para alguém ligado à arquitetura, são mais do que evidentes as relações com La Muralla Roja, de Ricardo Bofill (convido-vos a uma breve pesquisa) e depois porque a forma como a mesma interage com os jogadores é, por si só, a mais perfeita analogia à própria série e àquilo que, no fundo, ela nos quer – desconfortavelmente – transmitir.

Ainda que sedutora no aspeto, bem desenhada e em cores pastel super apelativas (rosa, verde e azul com “fundo” cinza escuro), este elemento arquitetónico subverte a essência do que, por princípio, se espera da própria arquitetura – ainda que nos permita refletir a outros níveis sobre toda a extraordinária capacidade da criação de espaços. Assim, a função principal desta escada/corredor/labirinto tem como função principal não a acessibilidade, mas antes a vontade de desorientar os jogadores – e os telespetadores – potenciando a instabilidade emocional na forma como o acesso a cada novo troço parece o último. Da escada e da vida.

E isto é extraordinário. Porque me fez voltar à certeza cada vez maior de ter escolhido a melhor profissão de todas. É cada vez mais fascinante para mim perceber essa capacidade que o espaço tem em nós. Física e emocionalmente. Como tão bem escreveu Jacob DiCrescenzo, “a arquitetura é uma experiência profundamente emocional”.

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