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Cidadania e Sociedade

HÁ HOMENS CONDENADOS A FICAR “NA HISTÓRIA DAS GENTES”

Soni Esteves

Estamos no mês das Bibliotecas Escolares. É que agora há o costume de dar nomes a todos os dias e a todos os meses, como se fosse preciso isso para lembrar da importância de certos acontecimentos, pessoas, ou outra coisa qualquer. Mas às vezes é mesmo necessário, antes recorríamos às velhinhas agendas onde anotávamos números de telefone, hoje estamos cada vez mais dependentes do telemóvel ou das redes sociais que nos recordam até os aniversários de quem nunca conhecemos. Seja como for, esta ideia tem virtudes, e a celebração deste mês — que não lembra às pessoas a importância das Bibliotecas Escolares, porque creio que disso ninguém duvida — é pretexto para se realizarem nas escolas atividades cheias de significado. Ontem passei parte do meu dia numa biblioteca, onde assinei imensos livros, juntamente com a ilustradora Joana Torgal, entre os cerca de 2000 que serão entregues a todos alunos de Amarante, dos 4.º, 6.º e 9.º anos de escolaridade. Mas, comecemos pelo princípio, aliás, muito antes do princípio desta história.

Há algum tempo, um aluno meu, numa daquelas entrevistas que os alunos fazem para os jornais de escola, perguntou-me se, quando eu era pequena, já sabia que queria ser escritora. E não, eu nunca tinha sequer imaginado tal futuro, sempre me imaginei professora, sempre me vi rodeada de livros, mas como leitora. Na verdade, eu não pensava nos escritores, para mim interessava o “livro”, via-o nas estantes das livrarias, das bibliotecas, e parecia-me que sempre ali tinham estado, ou nascido, como se aquelas fossem fábricas de sonhos embrulhados em papel. Só mais tarde comecei a perceber que por detrás de um livro há um escritor e que nem todos eles estão mortos.

Hoje não é assim, as Bibliotecas Escolares aproximam livros, alunos e escritores. Isso aconteceu hoje na E.B. 2,3 de Amarante e tudo graças a um homem, um verdadeiro amante da cultura e do livro, o Dr. Joaquim Pinheiro.

                                                                                                       Joaquim Pinheiro

Conheci, pessoalmente, o Dr. Joaquim Pinheiro no dia da cerimónia de entrega do prémio literário Ilídio Sardoeira, na sua 2ª edição. Percebi que aquele homem era um político diferente, daqueles que nos fazem acreditar que ainda vale a pena dirigirmo-nos à secção de voto em dia de eleições. Estou à vontade para falar porque nunca votei nem votarei em Amarante e, na altura, não sabia nem me interessava a sua cor política, de resto, nunca tive por princípio ajuizar as pessoas pela ideologia política, religiosa ou clubística. Mas, dizia eu, percebi que aquele homem era, antes de mais, um homem de missão, e era esse o espírito com que encarava toda a sua atividade política e social. Um professor, bibliotecário, político, um humanista que, enquanto presidente da União de Freguesias de Amarante (S. Gonçalo), Madalena Cepelos e Gatão, concebeu uma estratégia para a freguesia que muito contribuiu para uma dinâmica cultural hoje reconhecida em Amarante. Foi nesse espírito que concebeu um Prémio Literário que, nas suas palavras, “se orientou sempre, e apenas, por critérios e preocupações culturais e educacionais. Critérios que estão perfeitamente salvaguardados na decisão de não permitir que as obras vencedoras sejam colocadas à venda, mas sejam oferecidas a todos os alunos do 4.º, 6.º e 9.º anos de escolaridade que frequentam os estabelecimentos de ensino do concelho de Amarante.”

Soni Esteves e Joana Torgal (ilustradora)

Na sexta-feira, foi a cerimónia de entrega do Prémio Ilídio Sardoeira, terceira edição, e coincidiu com a apresentação do meu livro “A que sabe o Mar”. Tive a honra de receber das mãos deste homem, na presença do senhor presidente da câmara de Amarante, dos diretores de escolas e estabelecimentos oficias particulares e cooperativos do mesmo concelho, do escritor António Mota que preside o júri deste concurso literário, de muitos professores e alguns alunos das escolas do Marão, Ilídio Sardoeira e da escola anfitriã, a E.B. 2,3 de Amarante. A cerimónia iniciou-se com um momento muito bonito, a declamação de dois poemas ao som de um piano magnificamente interpretado por um terceiro aluno. Foi um momento muito bonito e emotivo, tal como os momentos que se seguiram, com as palavras de todos os intervenientes que não deixaram em branco o facto de este ser o último ato oficial do Dr. Joaquim Pinheiro, uma vez que não se recandidatou ao cargo de presidente de junta que exerceu nos últimos anos.

António Mota, escritor e presidente do júri do concurso

O senhor presidente Joaquim Pinheiro, ficará na história de Amarante e ficará na minha, tal como, tenho a certeza, na de muita gente. Bem-haja.

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