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Cultura, Literatura e Filosofia

A DERRADEIRA METAMORFOSE

“Vou dizer-vos as três metamorfoses do espírito: como o espírito se transforma em camelo, o camelo em leão, e o leão em criança, para acabar.”
Friedrich Nietzsche, Assim falava Zaratustra, Editorial Presença, página 27
Regina Sardoeira
Decididamente, o mundo actual não evolui porque não cumpriu ainda as três metamorfoses anunciadas por Nietzsche.
Quase todos vivem na fase do camelo, esse,  que carrega pesados fardos, que ajoelha para a tarefa ser mais favorável àqueles que querem submetê-lo. O camelo é forte: mas deixa que lhe ponham nas costas toda uma quantidade de pesos que não lhe pertencem e permite que essa carga, vinda de fora, se transforme na sua própria natureza.
Os fardos que a humanidade carrega são todo o conjunto das leis, regras, normas sociais : o camelo rege-se pelas máximas do mundo e a sua palavra de ordem é “Tu deves!”  O dever acorrenta-o, o dever impede-o de sair do confinamento das ordens, dos mandamentos, das proibições; e ele procura as cargas todas do mundo para. com elas, se fazer à estrada e alcançar o destino pré-definido. O camelo não cria o universo das leis com que o mantêm acorrentado, não questiona a validade desse somatório de ordens, não sacode a carga que lhe acrescentaram ao dorso. O camelo não se revolta com o peso nas suas costas. Não lamenta ser um animal de carga. Não deseja pensar e agir por si mesmo.
A humanidade, esta massa de indivíduos soldados entre si pela força das convenções, dos sistemas, da autoridade, vive a ilusão da autonomia, o sofisma da liberdade, a mentira da opção. Ninguém é, de facto, autónomo, porque a lei não vem do próprio que a ela  se cinge, mas de códigos milenares oriundos da necessidade de suster o ímpeto individual e construir uma aparência de coesão. Ninguém é, de facto, livre, porque o condicionamento esculpido em cada um na infância, no acto educativo, na tradição, no jogo de influências e coacções, encobriu a clareza original do indivíduo dado ao mundo, transformando-o em joguete. E as opções, os actos deliberativos que cada um  empreende, determinando, para si próprio, um caminho e um lugar no mundo, não passam de falsas escolhas –  ou o reflexo das determinações dos outros, os inventores da escala de valores por sua vez herdada, ela própria, e logo uma mentira.
O homem, esse que, tal como o camelo, vai acrescentando à sua silhueta inúmeras bossas, inúmeros aleijões desfigurantes, caminha na vida como um condenado, um cumpridor de leis, servindo o dever. Dizem-lhe que deve ser assim, afirmam-lhe que os códigos devem ser seguidos, que a honorabilidade está nesse curvar continuo da cerviz. E ele aceita, não imaginando, sequer, que a sua vida poderia ser outra: porque foi assim que lhe transmitiram os ensinamentos.
É, portanto, impossível evoluir. Se observarmos bem, o homem de hoje é absolutamente idêntico ao homem de todas as épocas, pese embora, nessa similitude, a alteração do progresso, certas diferenças na aparência das coisas e na dinâmica do mundo. Porque, tal como no passado, o homem continua a ser uma aglomeração confusa de princípios transmitidos e, pelo condicionamento, eles tornaram-se a sua natureza.
Mas o camelo, esse, que ajoelhou, uma e muitas vezes, para permitir que o carregassem bem, alcança, assim, o deserto. E lá, na imensidão sem fim à vista, o camelo tem um vislumbre de si mesmo, sente, pela primeira vez, o carácter estranho a si da carga com que o fizeram caminhar pela força do chicote. Pela primeira vez, também, o camelo trava uma luta entre o “Tu deves!” que lhe marcou cicatrizes no dorso e o “Eu quero!”, breve cintilar de energia íntima que ele ignorava possuir.
Desse combate entre o peso ancestral dos valores dos outros e a força individual da sua vontade recém-descoberta, podem nascer duas consequências: ou o camelo sente que é incapaz de alijar a carga e caminhar rumo à sua própria solidão e regressa àquilo que considera a sua condição, ou tem a coragem de abater o monstro que lhe obscureceu toda a capacidade de decidir e caminha, decidido, rum à segunda metamorfose: e assume o “Eu quero!” como divisa do leão que descobriu em si.
O leão é a afirmação do querer, a vontade de criar os próprios caminhos, à revelia do condicionamento adquirido, e a coragem de ficar a sós, no deserto. Doravante, o leão empreende a tarefa de cultivar o seu próprio querer, preparar-se para o momento de inventar novas máximas, novas tábuas de valores e adquire o supremo direito de dizer não ao dever,  não ao peso ancestral da tradição.
O leão trava, portanto, uma luta entre o dever com que o carregaram pelo tempo fora e o querer que acabou de descobrir, como sendo a meta a alcançar. Mas há no rugido do leão uma força reactiva, um impulso de revolta: ele descobriu o seu querer, na luta com o dever da fase anterior;  e, a menos que descubra o poder da última metamorfose, não conseguirá ainda mudar realmente o mundo.
Muitos, neste mundo, são leões enfurecidos ou frustrados, travando diariamente uma luta sem quartel contra os seus opressores, incapazes de afirmar o “Eu quero!” como acção e criação.
E continua Nietzsche, neste excerto do Zaratustra:
“Meus irmãos, para que serve ter este leão no espírito? Porque não será suficiente a animal paciente, resignado e respeitoso?”
O leão usa de violência contra si próprio, e o peso do dever que, enquanto camelo, carregou até ao deserto, representa o alvo preferencial dessa batalha infindável entre a descoberta do querer e o tumulto das leis que se sobrepuseram à sua natureza original. O leão tem a força e o poder de lutar contra as ilusões arbitrárias, presentes na base do que se habituou a considerar sagrado.
Mas, ainda que seja necessário este mergulho nos abismos do ser e esta luta poderosa entre dois mundos opostos, isso não significa que os leões deste mundo estejam aptos para a criação de novos valores. E o mundo permanecerá preso nesta batalha sem vencedores entre a acomodação conformista do camelo e a revolta impiedosa do leão, a menos que se dê a terceira metamorfose e o leão perceba que precisa de tornar-se criança.
” Mas dizei-me meus irmãos, que pode ainda a criança, e de que o próprio leão seria incapaz? Porque deverá ainda o leão roubador tornar-se criança?
É que a criança é inocência e olvido, novo começar, jogo, roda que se move por si própria, primeiro móvel, afirmação santa.
Na verdade, meus irmãos, para jogar o jogo dos criadores é necessário ser uma afirmação santa; o espírito quer agora o seu próprio querer; tendo perdido o mundo, ele conquista o seu próprio mundo.” (Nietzsche, o.c.)
Ora, neste mundo de homens vergados ao peso das heranças milenares e às tradições, feitos camelos bem carregados de imposições condicionantes, e de leões enfurecidos em luta contra uma carga pesada, alijada a qual também nada conseguirão criar, quem será capaz de jogar o jogo dos criadores, ser uma afirmação pura e não uma negação da negação, quem será capaz de aceder ao esquecimento inocente de tudo o que lhe roubou o ser e aceitar mover-se, por si próprio, num mundo recém-inventado?
Creio firmemente que ainda não foi possível ao homem aceder a esta última metamorfose do espírito e creio também que só atingindo essa soberana dimensão poderá a humanidade encontrar o seu verdadeiro espírito e a sua real e íntima natureza.
Por fim, afirmo que,  177 anos depois de nascer, em 15 de Outubro de 1844, as palavras de Nietzsche  soam, proféticas, como a verdade deste tempo.

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