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AS PRAÇAS E ROTUNDAS DE AMARANTE

Regina Sardoeira

Façamos uma pequena viagem. Entremos em Amarante, vindos de Vila Real ou da Régua, pela EN 15.
Na primeira rotunda com que nos deparamos, na zona do Queimado, e que saúda o viajante, foi criada uma vinha circular.

Creio que a intenção de quem deu ordens para plantar este conjunto de vides, sujeitas, como todos os espécimes do género, às variações de aspecto durante as quatro estações do ano, pretendeu homenagear o vinho verde amarantino. Chamaram-lhe “escultura viva” , foi alvo de polémica e lá está, há vários anos a dar as boas vindas a quem chega. Teoricamente, é uma ideia interessante; na prática é apenas uma vinha plantada num sítio pouco adequado, no meio do trânsito, que não permite passeios pelo seu interior e não se sabe (eu não sei) se o vinho é verde, se é bom, quanto produz ou se é, sequer, contabilizado. Esteticamente, é uma “obra de arte” que pouca contribuição recebeu do autor (confesso ignorar de quem foi a ideia e o projecto), pois, para além do traçado circular, decerto pré-estabelecido, quem a plantou e trata dela serão técnicos agrícolas. Nós, habitantes da cidade, já nos rendemos à vinha, fruto do hábito; quem chega, questionar-se-á, sem dúvida.

Continuando a viagem, deparamos, um pouco à frente, com uma nova rotunda, esta oval. Nela levantaram, sobre um pedestal, uma construção em pedra ou num material semelhante (ainda não observei rigorosamente), constituída por catorze ou quinze blocos sobrepostos, de tamanho considerável. Ouvi dizer que seria uma viola amarantina, a nova escultura. Vejo, de facto, o formato curvilíneo imprimido às pedras gigantescas: mas dificilmente consigo visualizar naquele volume de pedras sobrepostas e muito pesadas, calculo, a graciosidade da viola e muito menos o enleio musical que uma viola engendra. Também me disseram que ainda não está acabada: veremos que surpresa artística me reservará esta recente construção e como saberá o viajante que ali se presta homenagem a um instrumento musical típico de Amarante.

Desçamos um pouco, contornando a rotunda e saindo na terceira rua. Desembocaremos no Largo do Arquinho, ou Conselheiro António Cândido. Ele lá está, de facto, o conselheiro e notável tribuno, com a mão levantada: mas foi apeado, trazido para o limiar da praça, quase ao nível do chão. O resto do Largo que abre a cidade para quem, como nós, vem da EN15, não tem o menor encanto. É estéril, vazio, sem interesse. Nas longas escavações empreendidas ali, foi encontrado o Arquinho, uma ponte antiga sobre um pequeno ribeiro que desagua no Tâmega. Dizia-se que esse vestígio de outros tempos iria ficar acessível aos visitantes. Não ficou. Construíram uma grade de ferro sobre o achado e, quem por ali passa, poderá (ou não) interrogar-se sobre o que estará por baixo, e, entretanto, deixar cair um lenço de papel, um cigarro consumido, um desperdício qualquer. Já pude observar várias remodelações do Largo do Arquinho: esta é a pior de todas.

Subindo o Covelo, ou Rua 31 de Janeiro, atravessamos a ponte e viramos à direita. Entramos logo na Alameda Teixeira de Pascoaes e lá encontraremos a estátua do poeta. Ali tem permanecido, estático, de perna cruzada, olhando o que poderia ser a serra do Marão, mas não é: pois “esta terra funda e fundo rio” não alcança tanto a partir dali. Mas a referida Alameda, coração de Amarante, não tem o arranjo capaz de lhe outorgar essa dignidade. De há uns tempos para cá “plantaram” ali um logótipo gigantesco, de cores garridas que retira toda a imponência à representação do consagrado poeta. Vejo que o artista responsável pelo… (desculpem, mas não sei a designação daquilo) tentou dar a forma de uns arcos, querendo, decerto, simular a ponte de S. Gonçalo (que, afinal, está ali, a dois passos e em tamanho natural). A Alameda que dá acesso à Câmara, ao Museu, à sacristia da Igreja de S. Gonçalo deveria ter outro arranjo e, quem sabe? não ser transformada, diariamente, num parque de estacionamento automóvel.

Se dermos, a seguir, a volta à Alameda, e prosseguirmos para o interior da cidade, à direita, encontraremos a Praça da República, ou Largo de S. Gonçalo, aproximadamente igual ao que sempre foi, sem trânsito automóvel, com o icónico Café Bar parado num certo tempo e, note-se, com uma estátua de Teixeira de Pascoaes, de novo!, lá dentro, sentada a uma mesa, em pose melancólica, como se fosse escrever uma elegia. Confesso que me assusta um pouco aquele vulto estático, sombrio, agora cercado por um conjunto de cordões, para que ninguém possa aproximar-se muito, e penso: fará justiça ao poeta que, no seu tempo, frequentou este café, permanecer ali, sozinho, parecendo escrever e não escrevendo, de facto?

Saindo dali e subindo a Rua Antônio Cândido, não encontrámos senão lojas e obras, alojamentos locais, o edifício dos correios (de outros tempos, agora fechado) e, por fim, o Largo de Santa Luzia, que não chega a ser um largo mas antes o cruzamento de várias ruas. Sem qualquer pormenor digno de registo, a não ser o velho Pardieiro, cujas ruínas davam um sabor histórico ao sítio. Entretanto, umas obras demoradíssimas, precedidas de escavações arqueológicas e o timbre do Arquitecto Álvaro Siza Vieira fazer-me temer, de certo modo, o resultado.
Em Amarante, não há mais nada em outras rotundas e praças. Nem um jardim, nem uma fonte, nem um sinal de movimento e graça que convide ao passeio. Bem sei que há um parque florestal, logo ali, nas margens do Tâmega; por alguma razão que me escapa nunca foi transformado num verdadeiro e vivo parque da cidade e sei que, escassamente, os amarantinos o frequentam.

Cingi o meu périplo por Amarante às rotundas e praças. Quanto às primeiras, encontramos bastantes, pois foram substituindo cruzamentos e dispensando semáforos: mas, para além de um mero relvado ou agrupamento de arbustos e flores, são espaços sem alma. As praças de modo nenhum convidam à permanência, ao lazer.
Diz-se que Amarante é uma bela cidade, tem um rio sereno, reflexo privilegiado de céus variegados, uma ponte antiga, repleta de história, uma igreja secular e de belo traço arquitectónico e escultórico, algumas ruas e casas preservadas, no centro, uma mansão senhorial, feita hotel de cinco estrelas (e não quero falar, por enquanto, do Cine-Teatro, reduzido à fachada com um enorme edifício de vários andares construído por detrás). Bela cidade, sim, mas circunscrita a estes pequenos vestígios do passado, ali, no centro. Lançadas as vistas, para além e para fora, toda a beleza se esvaiu.

Escrevo estas palavras com mágoa. Sei que tudo aquilo que vai sendo feito na cidade é objecto de estudo, de análise, de discussão e, sem dúvida, votado em assembleia. Percebo que haverá artistas e técnicos variados a conceber e a executar os projectos e que haverá também verbas públicas destinadas a estes tópicos. O que me confrange é a óbvia falta de critério, de sensibilidade, de gosto, de antevisão e de todos os demais requisitos indispensáveis à reestruturação de uma cidade. Amarante tem atributos estéticos de sobejo, uns naturais, outros construídos. O progresso veio e entrou portas adentro, ampliando-a e modernizando-a: não houve, todavia, cuidado, respeito, visão, não foi feito um estudo profundo do que é efectivamente o carácter desta terra, a sua alma, digamos assim.

Pascoaes, de quem tanto falam, como valor máximo da terra, conseguiria ser quem foi nesta amálgama de praças e rotundas, neste amontoado inespecífico de construções, neste caos inexpressivo onde a beleza paira somente em pequenos fragmentos de natureza ou de arte, a certas horas do dia? Gostaria de sentar-se, vivo, naquele lugar onde lhe puseram a estátua para escrever realmente uma das suas páginas antológicas? Sentir-se-ia revigorado e capaz de respirar a plenos pulmões, erguido naquele pedestal onde foi mumificado, rodeado de trânsito, num jardim atafulhado? E o Conselheiro António Cândido, o tribuno, líder do Arquinho, o Largo do seu nome, gostaria de saber que lhe baixaram o alcance, reduzindo-lhe a visão? Subir-lhe-iam ainda da garganta os discursos poderosos que lhe deram fama ou, subjugado, retirar-se-ia da tribuna, agora reduzida?

Se falei apenas hoje dos diversos atentados feitos ao longo dos anos a uma cidade que poderia ser bela e já não é, foi na exacta medida em que a homenagem à viola amarantina, materializada na rotunda do Queimado, representou, para mim, a gota de água capaz de fazer transbordar o meu copo.

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