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Cultura, Literatura e Filosofia

UM ADEUS À MORTE ANUNCIADA

Anabela Borges

às pessoas da minha vida, à perseverança, à força crua da solidão.

Como quem atravessa a vida num navio, sem pensar em nada, as roupas flutuando sob a brisa, enquanto a embarcação corta vigorosamente as águas, separadas, como talhadas por gume afiado, assim vai deixando para trás o calor e a luz como um lugar inalcançável, longínquo e flutuante, como uma miragem, um borrão, uma névoa.  Tudo tão perto e já tão distante: o grasnido agudo das gaivotas, o cheiro calmante a maresia, os tons improváveis de verde-azul-turquesa, a areia branca a escorrer por entre os dedos. Como quem deixa para trás uma das baías mais belas do mundo, “até qualquer dia. Que este seja um tempo breve…”. Tudo vivido na sua cabeça e apenas na cabeça. Tudo envolto num reduto de suposições, na rodilha enrugada da imaginação. “O que até há um minuto parecia tão real, parece agora imaginário. Meia dúzia de passos é quanto basta para que tudo o que lhe está associado perca o sentido de realidade”.* Lembrava-se desta frase de um livro, de quando um dos filhos vinha ler para ela. A sua mente atormentada gravava a leitura, como clava batendo fortemente: frases, palavras, lugares, objetos… Nunca sequer tinha visto o mar, nunca tinha andado de barco, nunca tinha acariciado a areia fina. E tinha avistado uma gaivota apenas uma vez, pousada num sinal de trânsito, na cidade portuária, que acompanhou,  enquanto conseguiu, com o deslizar da cabeça em direção ao vidro de trás do carro. Desse dia, ficara-lhe uma leve sensação a maresia, que não pôde guardar como código na memória dos odores, de tão breve que foi.

Levantou os olhos, e era nesse espírito, em determinadas horas e com determinada luz, em que o céu atingia o tom de azul-ferrete, que toda a nostalgia da vida e de todas as estações lhe caía aos pés. Ficava só com aquele sentimento de entrega, de íntima relação com a envolvente, na solidão total de ser só ela e o mundo. O céu absorvia todos os ruídos que pudessem ainda persistir. Era tempo de preparar corpo e mente para um novo ciclo.

Agosto, com o frio no rosto, era agora um cavalo galopando rápido e com ele o verão desvanecendo-se como fumo morno e fugaz. Uma névoa fresca e delicada descia as encostas, cobrindo o vale, cobrindo os altos da manhã, pegajosa como açúcar húmido.

E o verão foi ficando aquele lugar ainda ali mas já distante, deixando para trás um pequeno rasto de ideias vãs. A luz quebrada de fim de tarde invadia a sala. Tempestades abatiam-se sobre a casa e o jardim: chuva, raios, coriscos e rolas bravas. Muitas esperanças iam embora e novas outras teimavam em nascer nos alvores de setembro. Porque sempre há um tempo próprio para as luzes de setembro… “As luzes de Setembro ensinaram-me a recordar os teus passos desvanecendo-se na maré. Sabia já então que o rasto do Inverno não tardaria a apagar a miragem do último Verão”.* Absorvia a voz do filho como um torrão doce derretendo no céu da boca, e deixava-se ir para os lugares distantes que voavam vagarosamente nas asas dos livros.

Outubro. Barulhentos, passam três corvos. Sobrevoam o bosque num traçado de azul-asa-de-corvo. Os corvos são mais resistentes do que os pássaros frivolentos que se vão aninhando pelos cantos do ar, arrepiados das penas e apressados nos afazeres. Não se encolhem de frio nem se agastam de pressas. Voam numa suavidade veludosa e dão fortes gargalhadas ao sobrevoarem o bosque – dizem “crow!”.

Observava o bosque dos carvalhos. Demorava o olhar na massa de folhinhas verdes dançando na brisa, conjunto etéreo, cerebral. Ao longo do ano, ia tendo a clara perceção da sua transformação. Não era no dia-a-dia, mas em muitos dias que percebia as mudanças de estação no aglomerado encantado que é o bosque dos carvalhos. Agora já tinha algumas folhas amarelecidas  e muitas estavam caídas no chão, a formar o tapete-de-estalidos-debaixo-dos-pés. Não tardaria a ficar todo avermelhado, como corado do esforço, e depois, despido. Observava tudo aquilo e não sabia como tinha chegado até ali. Vira uma pressa em sair o verão pelas frinchas das portas, pelos vãos de escadas, esconsos insuspeitos e friestas das janelas. Nos vagos do tempo, ficara o espanto de existir, a nostalgia de não ter sentido o calor no brasume das tardes. O tempo evaporara-se nas noites frias e desaguara nas manhãs arrefecidas, “para onde foste, que não te vivi?”.

Assim como as ondas ao retraírem-se descobrem; como a neblina ao levantar-se revela”*, era outra sentença que lhe ficara gravada dos livros, habituada que estava a conviver com as brumas fumegando nas encostas, a natureza desvelando os mais secretos mistérios, como algo puro e inconstante ao alcance da vista, que jamais se atreveria a traduzir em palavras.

Novembro. O tempo tem um avançar rápido, como adiantando-se a cair num precipício de inverno sem fim. E os corvos dão a gargalhada de ironia, resistindo. Dizem “não temos medo do frio. o frio está longe. longe”. Mas não estava. O frio era já ali. Então ela pensava em ser destemida como os corvos e o seu negrume filtrava-se por entre o vago do céu, por entre as névoas, por entre os pinheiros mais longe, até que deixava de os avistar.

A pandemia separara a família, uns para cada canto, mudara todos os hábitos, levara embora o seu companheiro de uma vida, montado num pó de estrelas feio, cinzento, sem brilho… para sempre. A vida: “Ensinou-nos muito mais do que devíamos aprender, mas ensinou-nos acima de tudo que nenhum lugar da vida é mais triste do que uma cama vazia”.* E esta letargia da vida durava há muito tempo, e parecia não ter fim.

É dezembro e tudo parece ganhar um contorno mais pesado, mais memorial, de tudo o que há de suspenso, de inacabado, por fazer.

Há uma reação do corpo aquiescendo à solidão extrema, uma paralisia, deixando-se ir, o ritmo cardíaco aumentado, a respiração entrecortada, “morro. morro como quem antecipa o sopro gélido das flores mortas e o lento secar das fontes em gelo cristalino. a morte adiantando-se a cair num abismo de escuridão”. O vento sacode as encostas da noite. E, dolorosamente, acorda de um sono pesado e profundo.

Tinha começado a nevar. A neve trazia uma certa beleza, um certo brilho, um fascínio de coisas perdidas, de tempos antigos, como pétalas brancas, nupciais, aspergidas por mil anjos. E o cair silencioso da neve despertou-lhe a atenção, que voltou a refluir para a nostalgia de um tempo vago, de espelhos embaciados e vozes fumegantes, risos e azáfamas.

Os filhos, as noras, os genros, os netos e os bisnetos acotovelam-se na casinha velha. Acendem a lareira, preparam a mesa, trazem comida, espalham luzinhas.

A véspera de Natal deixa ver o topo da colina coroado por um véu diáfano, crepuscular.

Poucos de nós são resistentes como os corvos.

*Citações, pela ordem em que aparecem no texto: “Kafka à Beira-mar”, Haruki Murakami (2014); “As Luzes de Setembro”, Carlos Ruiz Zafón (2014); “Entre os Actos”, Virginia Woolf (1991); “Crónica de uma Morte Anunciada”, Gabriel García Márquez (1998).

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