Cultura, Literatura e Filosofia

IMPRESSÕES DE VIAGEM

Regina Sardoeira

Gosto de me passear sozinha por entre a gente de agora ou então prefiro procurar companheiros fictícios , esses, que me espreitam, tranquilos, nas linhas dos livros e que só conheço no modo indirecto com que me acenam prodígios na tessitura das frases, na luminosidade das sugestões, no vigor sempre alucinante da imagem, do perfume, do som… sim, os livros verdadeiros possuem tudo isto, são um apelo prodigioso aos sentidos e, por eles e com eles, acedemos a toda uma atmosfera virtual, capaz de nos encher a mente e o corpo.

Lembro-me de um livro repleto de odores, O Perfume de Patrick Suskind,viagem intensa pelo universo da composição dos cheiros, começando pela sua descoberta estreme e indo, numa progressão bizarra, até às mais estonteantes misturas, para cedo se transformar na obsessão delirante do protagonista que almeja (como almejamos todos, mesmo sem disso tomarmos consciência) pela síntese das sínteses, pela suprema metamorfose que lhe dará a plenitude e o poder. Lembro ainda dois livros recheados de sabores, Chocolate e Vinho Mágico de Joanna Harris, tão sedutores pela perfeita descrição de paladares que nos apetece comer, ou então cerrar os olhos e aspirar o suave deleite de requintados e exóticos pratos, doces e fluidos em Chocolate, quentes e específicos em Vinho Mágico. Penso também na precisão dramática de A Criança no Tempo de Ian McEwan, consigo, ver a lata amassada de Coca Cola no passeio da rua, quando a personagem masculina do livro se dirige, leve mas atento, com a filha pela mão, para umas compras de sábado e depois, o regresso, pesado e ainda atento, com sacos inúteis de compras pendurados, flacidamente dos braços exangues e sem a filha pela mão, perdida bruscamente no bulício da loja e nunca mais encontrada, e de novo a lata de Coca Cola amassada rolando no passeio, a mesma, e contudo tornada outra, porque outro tempo chegou para o observador. Vejo nitidamente a velha senhora sul africana de Desgraça de Maxwell Coetzee, roída pelo cancro, em absoluta e procurada solidão, numa cidade marcada pelo racismo e pelo medo, vejo-a, com corpo, com rosto, com sentimentos, com voz, vejo-a repleta de fluidos maternais; e no entanto o seu criador é um homem, e enquanto lemos Desgraça custa a crer que não seja uma mulher a narradora daquela saga humana, humilde e baça, mas grandiosa e viva, como são todas as histórias da existência, mesmo que os seus protagonistas o não vejam ou não consigam senti-lo!

Quando me passeio, sozinha, por entre a gente de agora, leio nos rostos e nos corpos, nos trejeitos e nas acções, disfarçadas ou ostensivas, a história, a ficção, o segredo e o sonho: muitas vezes, tudo se esvai quando lhes falo, mas a sugestão permanece em mim e alimenta-me as horas da reflexão; quando as procuro nos livros, os tais, os verdadeiros, encontro-as sempre, pois a matéria humana é rica e esplendorosa: mas é preciso um génio da escrita para apanhar-lhe o som e o gosto. E é por isso que um bom livro tem a marca humana de todos os que lhe deram corpo, misturados, aglutinados, sublimados ou reduzidos a sombras, e ele traz sempre a luz de um olhar, a presença de um corpo, a turgidez de um intelecto, e por isso vive, tanto ou mais do que esses que por nós passam, discretos ou altaneiros, no palco do mundo!

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