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Cidadania e Sociedade

VAMOS CANTAR AS JANEIRAS

Anabela Borges

Quando eu era pequena, só os narizes gelados, só os queixos gelados, os dentes gelados, as mãos e os pés gelados podiam dizer da magia que assomava aos nossos olhos crentes de criança, num brilho especial; só as bochechas coradas do entusiasmo, e o fumo que saía das bocas, bafo quente, na noite escura do fundo dos tempos, noite sempre misteriosa e fria, noite longa, interminável, a despontar da luz própria de Janeiro, enluarada, promessa de Primavera.

A geada caía, num silêncio renovado, quebrado pelas nossas vozes, ora mais afinadas ora mais esganiçadas, às vezes espaçadas em cadências incertas, desvairadas, umas vozes a seguirem outras vozes, perdidas na noite, como numa imitação incessante.

Os instrumentos eram do mais genuíno improviso que a ocasião conseguisse produzir: uma guitarra de acordes destemperados, uns ferrinhos tiritantes e um realejo desaustinado que nenhuns dos nossos beiços sabiam tocar com jeito de melodia.

Mas o mais interessante era quando a dona Arminda nos emprestava os batuques que o seu genro trouxera de África. Isso sim, isso fazia de nós o grupo mais espantoso de cantadores de Janeiras nas redondezas. Era uma circunstância tão inusitada, que parecia que o som daqueles batuques transportava as pessoas para lugares só imaginados, e parecia que as deixava anestesiadas a olhar para nós, sem nos verem, como se olhassem para o fundo da noite, antes de soltarem as moedas que haviam de tlim-tilintar ao cair no gorro preto que fazia de saco. O som dos batuques a perder-se na imensidão da noite, a arrastar ventos que se sonhavam mornos, a agitar o verde de uma vegetação impossível de ser real e a provocar restolhares de bichos nunca antes vistos, o som que enfeitiçava tudo e dava às nossas Janeiras uma magia, que era como uma cisma a perdurar sobre os telhados brancos de Janeiro; África inteira metida no som aqueles batuques, uma África só imaginada, a espreitar o gelo de Janeiro.

Até hoje, eu continuo a acreditar que as Janeiras têm uma magia especial, uma tradição que eu gosto que se mantenha.

Todos os anos recebo em minha casa o rancho folclórico da minha freguesia. As portas abrem-se de par em par, as luzes da casa acendem-se, e aqueles cantares ecoam na noite, rua abaixo. É sempre um cantar dedicado ao Menino e ao advento do Novo Ano. É um cantar à moda do Minho, onde as vozes esganiçadas das cantadeiras mais gaiteiras sobressai do coro corado e dos fumos que se soltam das bocas no frio da noite.

Ouço-os com um imenso prazer. Por momentos, flutuo, deixo o espaço, a casa; vivo outras realidades, outros tempos.

É então que os meus olhos se perdem longe, no fundo da noite, na ilusão das vozes, a parecer-me que ouço os batuques africanos, a trazer para a rua a magia dos ventos mornos, dos verdes impossíveis e dos bichos que os rigores de Inverno do nosso Janeiro jamais conseguiriam suportar.

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