Cultura, Literatura e Filosofia

O MUNDO DE HOJE

Regina Sardoeira

Há dias, e pela primeira vez desde que este “novo tempo” se imiscuiu no nosso quotidiano, fui impedida de jantar num restaurante. Ao entrar, dois funcionários interpelaram-me, quais polícias do espaço, e pediram-me o comprovativo de um teste negativo do covid 19. Decerto tenho andado um pouco distraída, pois não realizo este tipo de testes diariamente, o que teria sido, decerto, necessário naquelas circunstâncias visto que decidi, repentinamente, comer fora, antes de ir para casa. Os funcionários do restaurante pareceram-me constrangidos; quanto a mim, virei costas e vim embora.
Não foi uma contrariedade grave – vim simplesmente comer a casa – nem tão pouco me irritei com o restaurante, muito menos senti a necessidade de fazer tantos testes quantos puder para não me ser barrada a entrada em nenhum lugar. Porém, este incidente menor, repercutiu em mim, mostrando-me o quanto temos vindo a perder de espontaneidade. O meu gesto, precedido pelo pensamento: “Vou comer ali e evito cozinhar quando chegar a casa!”, foi travado, fruto de uma situação anómala, vigente no nosso meio há quase dois anos, no contexto da qual me tornei suspeita de poder contagiar outrem e sendo, desse modo, afastada daquele espaço.
Dir-me-ão: “Mas são as regras, é o que foi estabelecido para prevenir o avanço da doença e, mais cedo ou mais tarde, tudo terá terminado!”
Só que,entretanto, os hábitos adquiridos neste tempo que se acreditou transitório e que , afinal, parece não ser, insinuaram-se nos comportamentos, esculpindo outra natureza. Já éramos a mais imperfeita de todas as espécies, se bem que não o confessássemos com frequência, e tendessemos a considerar- nos supremos reis de toda a natureza; mas dispúnhamos de certas vantagens, ao nível da comunicação, da criatividade, da inteligência, da capacidade de evoluir entre algumas outras. Porém, este brusco ataque de um minúsculo fragmento de matéria, vindo ninguém sabe muito bem de onde, ainda que sobrem as teorias explicativas, atacou primeiro um, depois outro e a seguir milhares de humanos, infectando-os, fazendo com que adoecessem, tivessem que ser isolados, numa senda crescente de restrições, espalhando ondas de pânico e obrigando a um novo modo de viver.
Ao longo dos séculos, a humanidade conheceu reveses, sob a forma de epidemias, pestes, guerras. Tudo isso pode ser lido e analisado na História; mas a História é o relato do passado e nada nos ensina, de facto, acerca do modo como lidar com cataclismos, no presente. Devia ensinar?
Escreveu Hegel, parafraseando, decerto, o Eclesiastes: “Nada existe de novo debaixo do Sol”, o que significa, precisamente, que o que foi voltará a ser, o que aconteceu ocorrerá de novo, o que foi feito far-se-á outra vez. Logo, tudo aquilo que sucede hoje e nos assola tem o seu equivalente nos tempos ancestrais, mais ou menos longínquos, desenvolver-se-á, deixará marcas e desvanecer-se-á um dia. Ao mesmo tempo, e retornando a Hegel, não teremos chegado ao fim do tempo, ao fim da História? Porém, segundo este eminente filósofo do século XVIII, o fim da História corresponde ao equilíbrio da humanidade, mergulhada em repetidas contradições ao longo dos tempos numa espiral dialéctica, até à síntese final que tudo redimirá. Terá este momento que vivemos o poder de gerar o equilíbrio da humanidade e logo o fim da mudança, da contradição, da antítese? E esse estado, finalmente atingido, trará consigo um homem superior?
O mundo de hoje, com a humanidade em choque, carece de respostas. Vivemos um lapso de tempo em que toda e qualquer reflexão filosófica se esbate de encontro à ingente necessidade de sobreviver a todo o custo. Possa o futuro trazer a clarividência necessária para redimir este homem acabrunhado e pleno de incertezas.

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