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Cultura, Literatura e Filosofia

O AUTO-CONHECIMENTO NOS ANTÍPODAS DA GUERRA

Regina Sardoeira

Cada vez menos entendo a guerra, esta mesquinhez dos homens, travestida de grandeza, pela qual invadem territórios alheios na ânsia de conquista.
Oiço falar todos os dias de uma iminente invasão da Ucrânia pela Rússia, de declarações deste e daquele país, já prontos para interferir, lançando-se também eles na guerra e, salvo ambições de carácter económico, que são, frequentemente, o alvo morivador de todas as guerras, ou desejos de colonizar e acrescentar território, que têm servido também para declarações de guerra, ou luta pela hegemonia e controlo de outros povos e tudo o mais que quiserem: mas não consigo absorver um cenário de guerra no mundo contemporâneo.
É bem certo que a guerra tem estado sempre presente desde os primórdios da humanidade e prossegue, agora, em muitos territórios. Mas deve daí inferir-se que a humanidade não pode subsistir sem a luta, o confronto, o domínio?
Sem dúvida, este é o denominador comum a toda a evolução humana. O mesmo se passa com o animal selvagem, no seu habitat, que necessita de defender o seu espaço, de caçar para sobreviver, de esconder-se ou usar as suas armadilhas naturais.
No entanto, diz-se que o homem é uma espécie superior, que levantou as mãos do solo tornando-se uma presença altiva na natureza, que inventou a linguagem com a qual comunica com os outros homens, que descobriu a ciência, a arte, a filosofia, e tantos outros recursos aptos a embelezar ou a facilitar-lhe a vida. Apesar disso, centenas ou milhares de vezes, a selvajaria da qual emergiu como ser superior, apossa-se dele e deita a perder tudo o que conseguiu por força desses atributos que o fez tornar-se ” o homem”. Destrói cidades, arrasa monumentos, espalha o medo, engendra a fome, a miséria, a violação de tudo o que é, efectivamente humano e digno de apreço.
Será possível que, ainda hoje, neste XXI século da nossa era, o recurso à guerra seja utilizado em prol de ambições, para dominar e vencer , para mostrar grandeza, quando as únicas e verdadeiras ambições, o único e autêtico domínio e grandeza estão no cerne de cada indivíduo e é apenas nesse domínio que os homens deveriam exercer o combate, vencendo-se a si mesmos?
É, porém, sobremaneira difícil cada um analisar-se a si próprio, separando o bom e útil do maléfico e desnecessário e travar a única e realmente frutífera guerra, visando a própria elevação.As tentações são muitas e os delírios grandiloquentes acoitam-se onde quer que haja homens; e ei-los que investem, de sobrolho cerrado, contra aqueles que supõem ser os inimigos. E todavia não o são: o único e verdadeiro inimigo do homem é ele próprio, a sua tibieza, a arrogância desmedida que transporta em si, o egoísmo, a vaidade e uma lista longa e morosa de outras tibiezas.
No século V a.C., Sócrates leu, no frontão do templo de Apolo, em Delfos, o imperativo “Conhece-te a ti próprio” e logo fez dessa sentença o mote essencial das conversas que tinha com os jovens de Atenas e que vieram a tornar-se memoráveis por via dos diálogos platónicos. Para levar os discípulos a atingir o auto-conhecimento, fazia apenas perguntas. Levava-os, subtilmente, a perceber que tudo aquilo que julgavam conhecer era falso, inadequado ou inútil. Fazia com que mergulhassem no mais profundo vazio pois nenhuma das suas certezas se aguentava na portentosa argúcia da interrogação. E diziam: “Não sei nada, afinal”. Mas essa constatação possuía, aos olhos do mestre, o ponto de partida para o verdadeiro conhecimento, e era designada como douta-ignorância, em contraste com a nesciência do estado inicial do diálogo. O jovem ficava a saber que nada sabia; e, firmado nesse conhecimento inicial (saber que não se sabe), partia, animado para o desbravamento do seu interior onde poderia ascender à verdade.
Ora, este método tão antigo e contudo tão pleno de potencial, se acaso fosse utilizado, nas escolas e na vida, está aí, ao alcance de todos! Bastará somente a coragem de livrar a mente da escória, aceder ao reconhecimento da ignorância e depois desentranhar de si o caminho para a verdade.
Falta, porém, essa virtude a que chamei coragem: porque assumir semelhante atitude é penetrar num mundo vazio de onde as ilusões se ausentaram. E logo os homens inventam questiúnculas e batalhas, partem para a agressão verbal ou física, arrasam tudo o que de profundamente humano os anima e destroem o seu próprio e insubstituível equilíbrio. A guerra, esta que se trava hoje ou que está a ponto de travar-se, representa o supremo descrédito não só da humanidade como um todo mas também do indivíduo que se revelou incapaz de mergulhar no mais íntimo de si.
Mergulhemos em nós próprios, aprendamos a conhecer-nos: só assim se abrirá o caminho para a verdadeira dignidade humana.

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