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FUMAR ONTEM E HOJE

Soni Esteves

Hoje é fácil não começar a fumar, embora continue a ser difícil deixar de o fazer.  Eu faço parte daqueles que conseguiram deixar. Não sou melhor nem pior por fazê-lo, as circunstâncias ajudaram-me, tal como há muitos anos contribuíram para que me iniciasse no ato de fumar.

Fumei o meu primeiro cigarro com pouco mais de quinze anos e fumei ininterruptamente durante mais de trinta. Depois deixei e recomecei algumas vezes, até ter acontecido largar o hábito, até agora. Não digo para sempre, porque também o disse em outras ocasiões, embora acredite que desta foi de vez.

A primeira vez que fumei, fi-lo com duas amigas (que guardo até hoje e, se me lerem, vão talvez rir desta minha lembrança). Era uma experiência que queríamos fazer, mas não em público, tínhamos receio de evidenciar a nossa inexperiência, coisa normal quando se tem aquela idade.  Não recordo onde fomos buscar o cigarro, mas fumámo-lo à janela, para que pudéssemos atirar o fumo para o exterior, sem sermos descobertas. O engraçado é que não queríamos apenas inspirar e expirar o fumo, queríamos sorvê-lo-lo e retê-lo o mais possível, até decidirmos expeli-lo de modo suave e elegante. Para o conseguir, dizíamos uma frase enquanto travávamos o fumo, mas era difícil e ele saia como que aos repelões, ao ritmo das primeiras palavras. Custou, mas finalmente conseguimos. Não terá sido com elegância, mas conseguimos. O pior foi a dor de cabeça com que ficamos.

Se, pelo menos, essa dor de cabeça me tivesse dissuadido de continuar a fumar, teria valido a pena, o pior foi que insisti. Nessa altura, ninguém nos dizia que o tabaco fazia mal, quando muito diziam-nos que ficava mal a uma mulher fumar. Porém, essas vozes tinham uma conotação reacionária, fora de moda, que não gostávamos de ouvir.

O cigarro passou a ser um aliado, um companheiro para todas as ocasiões, para todos os lugares. Antes de começar a estudar, antes de uma aula, depois de uma aula, após a refeição (o casamento perfeito com o café), antes de uma tarefa, após uma tarefa, entre tarefas… tudo era pretexto para mais um cigarro. Por muito tempo foi assim. É difícil encontrar alguém com mais de cinquenta anos que não tivesse, nem que por pouco tempo, alimentado o prazer de segurar um cigarro entre os dedos. Aquele prazer que os anúncios, os chamados reclames, prometiam, na televisão e em páginas de revistas.

Antes de começarmos a fumar, já o fazíamos. Em todos os ambientes se vivia uma espécie de culto do tabaco, como se tudo à nossa volta conspirasse para que experimentássemos. Fumávamos porque queríamos fazer parte de qualquer coisa. As mulheres ganhavam uma aura de ousadia, modernismo e classe, e os rapazes, quando fumavam, assumiam rostos sérios e pensativos, eram como que atingidos por uma espécie de charme, uma onda de masculinidade.

Havia famílias inteiras de fumadores, grupos de amigos, turmas de liceu. Na universidade tive um professor de Literatura que fumava cigarro atrás de cigarro e colocava as piriscas sobre a secretária, viradas para cima, com o fumo a exaurir-se, como velas a arder até ao fim. O meu médico fumava cachimbo durante as consultas. Os cafés, os restaurantes e até as casas cheiravam a tabaco e nem percebíamos, o cheiro estava entranhado em nós, os fumadores, passivos ou ativos.

Hoje, tudo mudou. Em todo o lado parecem mostrar-nos que fumar mata. Além disso, dá-nos cabo das finanças. Fumar, além de ser um hábito muito caro, tornou-se démodé e os fumadores são uma espécie de desterrados na sua terra, relegados para espaços próprios, olhados de lado, como se fossem espécies a abater. E talvez sejam uma espécie em vias de extinção, talvez o tabaco venha a ser olhado no futuro, como hoje vemos o rapé, coisa antiga, condenada ao esquecimento.

Não me tornei fundamentalista, em minha casa não mando ninguém fumar para a varanda, não olho de lado os fumadores, não me julgo melhor nem pior por ter deixado de fumar, apenas acontece sentir-me mais livre. Aceito, porém, que alguns continuem a sentir prazer na sua luta pela liberdade de fumar, contra todas as opiniões, cânones do momento, e mesmo sabendo que o cancro do pulmão é aquele que continua a somar mais vítimas entre os portugueses.

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