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Saúde e Vida

DERMATITE SEBORREICA: O QUE É, PORQUE SURGE E COMO SE TRATA?

Paulo Morais

Médico, especialista de Dermatologia e Venereologia

O que é a dermatite seborreica?

A dermatite seborreica, ou eczema seborreico, é uma doença inflamatória cutânea, não contagiosa e relativamente comum, que surge em zonas abundantes em glândulas sebáceas, como é o caso da cabeça e da parte superior do tronco. É mais frequente nos homens e em pessoas com pele mais oleosa. Em bebés assume geralmente a forma de “crosta láctea” e desaparece, habitualmente, no primeiro ano de vida. No entanto, em adultos, a dermatite seborreica pode ter um curso crónico, apresentando períodos de melhoria e agravamento. Tem impacto negativo na qualidade de vida dos doentes, gerando desconforto por ser erroneamente associada à falta de higiene, especialmente quando se manifesta na forma de caspa.

Quais são as diferenças entre caspa e a dermatite seborreia?

A caspa, também chamada de “pitiríase capitis”, é uma forma não inflamada de dermatite seborreica restrita ao couro cabeludo. Apresenta-se como manchas descamativas, semelhantes a flocos brancos, dispersas pelo couro cabeludo. De notar que, além da dermatite seborreica, outras doenças podem provocar descamação no couro cabeludo, nomeadamente a psoríase, outras formas de eczema, a tinha (micose), o líquen plano pilar e o pênfigo foliáceo.

Quais os fatores que levam ao seu aparecimento? 

A causa da dermatite seborreica não é completamente compreendida, mas o número de leveduras do género Malassezia, um organismo comensal da pele, bem como a reação da pessoa a este fungo, terão alguma influência. Os metabólitos da Malassezia (como o ácido oleico, malssezina e indol-3-carbaldeído) podem causar uma reação inflamatória. As diferenças no conteúdo lipídico e na função da barreira cutânea podem ser responsáveis ​​pela apresentação da doença em cada indivíduo. O risco e a gravidade da dermatite seborreica parecem ser afetados por fatores genéticos (geralmente ocorre em famílias). A doença pode ser mais comum e mais grave em pessoas com distúrbios neurológicos e psiquiátricos (como doença de Parkinson, epilepsia, paralisia do nervo facial, lesão da medula espinal e depressão), imunodeprimidas (transplantados de órgãos sólidos, HIV/SIDA ou com linfoma) e em doentes com síndrome de Down. Vários outros fatores podem favorecer o aparecimento da dermatite seborreica, como alterações hormonais, uso de produtos capilares desadequados e aplicação excessiva de produtos de hair styling, clima seco e frio, doenças ou dietas deficientes (ex.: falta de zinco), detergentes agressivos, solventes, químicos ou sabonetes, medicamentos (como interferão, metildopa e haloperidol), falta de sono e stress psicoemocional. Sabe-se que os maus hábitos de higiene não estão na sua origem, mas podem evidenciar a doença devido à acumulação de caspa no couro cabeludo.

Como se manifesta clinicamente?

A forma infantil de dermatite seborreica surge habitualmente nos primeiros 3 meses de vida e desaparece por volta dos 6 a 12 meses de idade. Carateriza-se pela presença de escamas amareladas e aderentes ao couro cabeludo (“crosta láctea”) podendo, nas formas mais extensas, afetar também as pregas da face, pescoço, axilas e a região da fralda. No adolescente e no adulto a doença manifesta-se por descamação seca ou oleosa (caspa) no couro cabeludo, sobrancelhas, barba ou bigode, que pode ser visível nas roupas escuras ou a olho nu. Em casos mais graves surgem manchas ou placas avermelhadas, com escamas amareladas ou esbranquiçadas no couro cabeludo, ao longo da linha de implantação do cabelo, em redor do nariz, sobrancelhas, glabela (entre as sobrancelhas), pálpebras, canal auditivo, atrás das orelhas e peito (região pré-esternal). A dermatite seborreica pode também atingir as axilas, as regiões submamárias, as virilhas, o sulco internadegueiro e a área genital. A comichão pode estar presente nas regiões afetadas, especialmente no couro cabeludo e no canal auditivo.

Como se trata?

Existem inúmeras opções terapêuticas para a dermatite seborreica, devendo equacionar-se a gravidade da doença, a localização das lesões e a idade do doente aquando da seleção do tratamento. Embora não exista um tratamento curativo, temos disponíveis champôs, soluções, cremes, pomadas e outras apresentações, com indicações precisas e diferentes ingredientes-ativos, que ajudam a controlar os sintomas e sinais da doença.

  • Em bebés, o couro cabeludo deve ser lavado com um champô infantil suave e assim que as escamas começarem a amolecer deve ser usada uma escova de dentes macia para libertar aquelas estruturas. Na presença de crosta espessa podem ser utilizados produtos com alguma ação queratolítica, vaselina, óleo mineral ou uma solução com corticosteróide. Se a doença afetar outros locais pode ser prescrito um creme antifúngico ou, nos casos mais graves, corticóides tópicos.
  • Em adultos e crianças mais velhas, a dermatite seborreica do couro cabeludo pode ser tratada com champôs contendo o antifúngico cetoconazol, piritionato de zinco, sulfureto de selénio, enxofre, alcatrão, ácido salicílico ou outros queratolíticos. Para alívio da comichão pode ser aplicada uma solução contendo corticosteróide. Na dermatite seborreica da face e tronco pode ser usado o cetoconazol ou outro creme antifúngico, corticóides tópicos ou, em alternativa, inibidores da calcineurina (pimecrolímus e tacrolímus), especialmente quando é necessária terapêutica prolongada e se pretendem evitar os efeitos adversos cutâneos dos corticóides. Em casos resistentes podem ser recomendados: itraconazol oral, tetraciclinas, isotretinoína oral em baixa dose ou fototerapia.

Muitas vezes, o tratamento da dermatite seborreica tem de ser mantido durante várias semanas e pode ser retomado em caso de recidiva da dermatose. Para evitar o uso prolongado de medicamentos, acelerar a resolução das crises e evitar recidivas podem ser utilizados produtos tópicos não farmacológicos (cosméticos) contendo ingredientes antimicrobianos, seborreguladores, antioxidantes e anti-inflamatórios. Consultar o médico assistente ou um profissional de saúde especializado pode ajudar a distinguir as melhores opções terapêuticas.

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