Cultura, Literatura e Filosofia

O TRAUMA DE NASCER

Regina Sardoeira 
Le Clésio, escritor francês que ganhou o prémio Nobel em 2006, escreve, no prefácio do seu livro “Febre”:
“Se querem realmente saber, eu preferia nunca ter nascido. A vida, acho-a muito fatigante. Claro, a coisa agora está feita e já nada posso fazer. Mas haverá sempre, no fundo de mim mesmo esse remorso que não chegarei a expulsar completamente e há-de estragar tudo. (…).”
Reflecti sobre estas palavras, principalmente quando o autor afirma que “preferia nunca ter nascido”. E imediatamente me acorreu à mente a incapacidade de recordar esse momento e, afinal, também, esse acto, pelo qual cada um de nós é, brusca e violentamente, expulso do ventre da mãe. Expulso é uma palavra forte, bem sei. O certo é que não existe nenhuma outra que tão bem explicite o esforço violento que qualquer gestante precisa de realizar para dar à luz.
Dizem que, a certa altura, o feto está pronto para sair e, por isso, deve nascer. Porém é o corpo da mãe que se abre e se contrai inúmeras vezes na tentativa violenta de expelir de si o ser que albergou e nutriu durante nove meses.
Ora, a criança que desse modo sai por uma estreita fenda que, lentamente, se vai abrindo para deixá-la passar, nada pode saber do trajecto que é forçada a fazer, rumo à luz. Nada sabe e decerto se pudesse ser ouvida no mais íntimo de si, se houvesse forma de   lhe explicar o que a espera, cá fora, ela recusar-se-ia veementemente a sair.
Nascer é um trauma profundo. Bruscamente, somos retirados daquele aconchego tépido, do lento vogar num líquido nutriente, cuja  natureza nos dá tudo aquilo de que necessitamos e lançam-nos para um espaço hostil onde somos obrigados a respirar, a sorver o alimento, a sentir inúmeras dores e incómodos para os quais o útero não nos preparou.
O parto é um acto bárbaro, pleno de gritos e de dores, um episódio sangrento e repugnante que, forçosamente, deixa marcas profundas naquele que foi expulso – e portanto em todos nós. Se não fosse o esquecimento, essa espécie de amnésia que nos acontece e impede a rememoração do acto de nascer, não sei como suportaríamos olhar a nossa mãe e agradecer-lhe a dádiva que nos fez, entregando-nos ao mundo. Pelo contrário: tenderíamos a odiá-la porque nos expulsou do seu ventre protector e, não contente com isso, cortou barbaramente o cordão que a ela nos ligava numa união intrínseca e perfeita.
Le Clézio diz que “preferia nunca ter nascido”; e, qualquer um de nós, se reflectir bem sobre o curso dos seus dias, a partir desse momento obnubilado, teria igualmente uma tal preferência.
“A vida, acho-a muito fatigante.”,continua. E um tal reconhecimento advém, mesmo que ele não o diga ipsis verbis, da terrível experiência do parto e posterior adaptação à fatigante luta pela vida.
Mais à frente, Le Clézio fala de “remorso” e um tal sentimento decorre da aceitação forçada do nascimento, que ele não quis, que decerto não quereria, se acaso houvesse sido consultado e lhe explicassem a soma de trabalhos que iria ser a sua vida daí em diante.
O remorso de nascer, recôndito e de modo nenhum assumido pela consciência, pode explicar a instabilidade  da nossa espécie, a tendência irreprimível para actos violentos, o desejo de aniquilar os seus iguais ou, no limite, de se aniquilar a si mesmo. Latente, mas aprisionado muito no fundo, reside o ódio à mãe que, depois de o nutrir como parte de si mesma, o obrigou a sair, a respirar, a gritar. Somos , pois, o produto de uma violência: que admira, portanto, que essa mesma violência que a todos nos aconteceu seja o pano de fundo de toda a história humana?
Temos, enquanto humanidade, uma sede irreprimível de vingança e exprimimo-la com os actos mais bárbaros ou então com pequenas e múltiplas perfídias pelas quais desejaríamos vencer o desgosto profundo de termos sido separados da mãe, a contragosto.
A humanidade caminha a passos largos para o fim e os sinais são tão evidentes quanto possível. O homem é, decerto, por força desse momento traumático que o deu à vida, um ser profundamente perturbado, capaz das maiores atrocidades contra os que são seus iguais e até contra si próprio. O homem tem vindo a degenerar de uma forma acelerada porque o seu tempo está a esgotar-se e o remorso de viver de que fala Le Clézio não poderá nunca ser ressarcido. Isso não significa de modo nenhum que os primeiros homens fossem sãos e os de agora esta miséria diariamente patenteada. O mal esteve lá desde o início. Porém, os anos, os séculos, os milénios e todos os produtos e resultados da profunda mágoa de viver acumularam-se, criando uma montanha de escória impossível de resgatar – porque já não há espaço, a Terra está, também ela, exausta e impotente e não poderá purificar-se nunca mais.
Palavras terríveis, estas? Decerto. Mas se quiséssemos ser honestos todos nós as diríamos em uníssono, todos nós clamaríamos com Le Clézio:
“(…) Mas haverá sempre, no fundo de mim mesmo esse remorso que não chegarei a expulsar completamente e há-de estragar tudo.” (…).”

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