Cidadania e Sociedade

APARIÇÃO

Soni Esteves

Próxima que está a data de envio da minha crónica mensal, dou por mim a perceber que a Covid parece ter ocupado o meu cérebro, de tal forma que em tudo o que penso, faço uma hiperligação que vai lá dar, irremediavelmente. Mas vamos lá explicar isto bem explicado, tanto quanto o espaço nevoento da minha mente, ainda não totalmente dissipado, me deixar.

A Soni é a primeira da foto, a Jacinta, que está ao lado do Francisco.

Antes de começar esta crónica, reli a que escrevi há um ano, neste mesmo mês, quando, por muitas razões, estava mais inspirada. Escrevia então, na dita crónica, que muitos anos antes, eu e todas as minhas companheiras levávamos flores para a escola, que a professora dispunha numa jarra, em frente a uma imagem de Nossa Senhora. Nessa altura chamávamos ao mês de maio, o Mês de Maria. Hoje, voltando a recordar o mês de maio da minha infância, era ponto assente para mim, que Maria não podia ter escolhido melhor mês para fazer a aparição aos pastorinhos de Fátima. Esse acontecimento mariano tornou-se muito importante para mim, sobretudo porque no meu terceiro ano, tinha oito anos, portanto, fiz parte de uma peça de teatro que representava o aparecimento da Virgem (eu era Jacinta). Talvez por ter vivido tanto o papel, dei por mim a questionar a razão para Maria ter escolhido precisamente aqueles três, tendo em conta que Francisco era um rapazinho muito dado à brincadeira e pouco amigo de responsabilidades, e que Lúcia e Francisca me pareciam duas meninas simplórias e sem graça. Com tantas crianças em Portugal e no mundo, logo foi escolher aquelas três. E porquê apenas elas quando, por certo, haveria outras crianças também merecedoras de tal graça.  Era um mistério ininteligível o critério que teria motivado a seleção daqueles pequenos pastores. De qualquer forma, aceitei algumas respostas como certas, ou pelo menos, como prováveis: Nossa Senhora visitava todas a crianças, cuidava delas, sobretudo das que se lhe dirigiam em oração, embora não permitisse que a vissem.  Enfim, eu não a via, mas ela estava presente na minha vida, já era alguma coisa.

Mas, porque estou a rememorar tudo isto? Porque é aqui que entra a Covid. Todos sabemos que ela anda por cá há já dois anos e, como era expectável, já não é o monstro aterrador que foi no início, sobretudo antes da descoberta das vacinas que têm minimizado, tanto os contágios, como a intensidade com que o vírus nos ataca. De qualquer modo, tentei sempre ser cuidadosa, usei máscara no trabalho, nos espaços fechados, nos locais com grandes aglomerados de pessoas, mesmo quando o seu uso passou a ser facultativo. O certo é que fui vendo os meus alunos, um a um, a serem apanhados na sua teia, muitos colegas de escola também, mesmo alguns que trabalharam comigo em grande proximidade… e eu nada. Comecei a pensar que talvez a Covid tivesse já passado por mim, feito parte dos meus dias, sem que eu me apercebesse, qual Nossa Senhora da minha infância. Como se ela se risse daquele ciúme infantil, e me dissesse que, também neste caso, eu não seria escolhida. E não fui, até há poucos dias, mas vá-se lá saber porquê, enganei-me… e de que maneira, ainda estão aqui as marcas. Todos conhecemos os sintomas, mesmo os que não passaram por eles. Uns têm mais, outros menos, outros nem perceberam a visita do vírus, mas eu tive direito a um menu quase completo, e digo quase, porque a minha febre pouco passou dos 38º e não tive falta de ar. Fora isso, tive tudo. O pior foi a dor de cabeça e a dor no peito; o mais desagradável é, sem dúvida, a perda do paladar e do olfato, este último ainda não recuperei, o que muito me entristece. Numa altura em que uma simples passagem por um jardim é uma viagem ao mundo dos sentidos, só tenho direito a metade do prazer. Não quero imaginar que breve não vou sentir a maresia, o cheiro doce e quente da esteva e do rosmaninho maturados, o odor da minha cevada ou do café acabados de fazer…e todos os perfumes que adoçam os meus dias.  Talvez seja melhor rezar à Virgem para que estes não se tornem para mim apenas uma doce uma memória.

 

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