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Saúde e Vida

CONTRA A OBESIDADE, MARCHAR, MARCHAR!

Rafael Varejão

No passado sábado, 21 de maio, assinalou-se o Dia Nacional de Luta contra a Obesidade e, sendo este um tema mais do que pertinente, vale sempre a pena reforçar o mote principal deste dia. Apesar dos esforços feitos pelos profissionais e entidades de saúde (dentro do possível), a obesidade continua a ter uma enorme prevalência e, só para entenderem melhor a gravidade da situação, apresento alguns dados que merecem toda a vossa atenção.

Comecemos a nível mundial. Desde 1975, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), a obesidade quase que triplicou, pelo que, em 2016, existiam mais de 1,9 biliões de adultos (≥18 anos) com excesso de peso e, destes, 650 milhões eram obesos.

Em termos europeus, os números também não são animadores. De acordo com o recente documento “WHO European Regional Obesity Report 2022”, em 2016, quase 60% dos adultos tinham excesso de peso ou obesidade (apenas 23% eram obesos), pelo que as estimativas apontam para um aumento de 21% na prevalência da obesidade desde 2006 e de 138% desde 1975.

A nível nacional, o mesmo relatório indica que, em 2016, a prevalência de excesso de peso (incluindo a obesidade) dos adultos se situa entre os 55% e os 60%, pelo que a obesidade detém uma percentagem um pouco acima dos 20%. Dados mais recentes do Instituto Nacional de Estatística (INE), referentes a 2019, indicam uma proporção da população residente com 18 e mais anos e com excesso de peso ou obesidade na ordem dos 53,6%.

Perante estes dados, o cenário torna-se ainda mais assustador quando tomamos consciência que 4 milhões de pessoas morrem, todos os anos, por apresentarem excesso de peso ou obesidade.

Considerada globalmente como a epidemia do século XXI, a obesidade é, desde 2004, classificada como doença crónica. Segundo a OMS, esta caracteriza-se pela acumulação anormal ou excessiva de gordura como resultado de um desequilíbrio energético, onde as calorias ingeridas sobrepõem-se às gastas (balanço energético positivo).

A prevalência da obesidade tende a ser superior nos países mais ricos da Europa, América do Norte e Oceânia. No entanto, tem-se verificado um aumento desta nos meios urbanos dos países em desenvolvimento. Aliás, é comum encontrar casos de desnutrição e obesidade a coexistir no mesmo país, comunidade ou até no mesmo agregado familiar. Basicamente, a questão da desnutrição continua por resolver, a acessibilidade de alimentos ricos em gordura, açúcar e sal e pobres em micronutrientes (mais baratos) é cada vez maior e os níveis de atividade física são baixos.

A obesidade é, portanto, uma doença grave, complexa e multicausal, sendo associada ao risco aumentado de mortalidade. Entre as suas causas estão fatores genéticos, psicológicos, comportamentais (sedentarismo e alimentação nutricionalmente desequilibrada) e externos (nível educacional, rendimento, acesso a cuidados de saúde e interesses comerciais, entre outros). Se não for convenientemente tratada, o organismo fica debilitado e a propensão para outras patologias aumenta, reduzindo a esperança média de vida dos doentes. Além disso, traz repercussões a nível individual, familiar e para o desenvolvimento social, pressiona o sistema de saúde e a economia, comprometendo a saúde das próximas gerações.

Um facto é que Portugal tem apostado, ao longo dos anos, em vários projetos como o Programa Nacional de Combate à Obesidade, o Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável e o Programa Nacional para a Promoção da Atividade Física que visam contrariar os efeitos nefastos desta doença. No entanto, a verdade é que a sua prevalência continua elevada.

De acordo com o documento “Recalibrar a balança”, o tratamento da obesidade continua focado nas suas consequências e não nas causas, sendo, na opinião dos autores, a razão do insucesso na redução da sua prevalência. Segundo eles, a situação reverteria com uma resposta transversal, holística e multidisciplinar direcionada para as causas, com o intuito de prevenir as complicações associadas. Além disso, recomendam ainda, como outras estratégias, que se aposte na formação especializada dos profissionais de saúde, na criação de um programa de consultas de obesidade nos cuidados de saúde primários, na comparticipação de fármacos e em medidas cujo intuito é afastar qualquer estigma e discriminação associada à doença. Estas vão de encontro com o conjunto de medidas recomendadas ao Governo, presentes na Resolução da Assembleia da República nº195/2021.

Nenhuma ação resolve, por si só, a obesidade. Embora seja complexo delinear uma abordagem eficaz para o seu tratamento, esta deverá passar por um conjunto de intervenções, nas diversas áreas da saúde e da atividade física, que visem a mudança comportamental. A rotulagem nutricional, o marketing alimentar, a taxação e subsídios sobre os alimentos, a oferta nutricional em ambientes públicos, a qualidade nutricional dos alimentos, a literacia alimentar do público, entre outros, devem estar constantemente a ser incentivados, revistos e aprimorados.

Enquanto nutricionista aposto na reeducação alimentar como base da minha intervenção, procurando entender o estado psicológico e emocional da pessoa. Nestas situações, é feita uma restrição calórica, recomendando-se a redução da ingestão de alimentos ricos em gordura (saturadas e trans), açúcares e sal, o aumento do consumo de hortofrutícolas, leguminosas e cereais integrais e a prática de atividade física.

Esta doença é, de facto, um desafio em termos de saúde pública global e que, no geral, continua a ser desvalorizada…

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Referências

Associação de Doentes Obesos e Ex-Obesos de Portugal (ADEXO). Sociedade Portuguesa para o Estudo da Obesidade (SPEO). Recalibrar a balança: por uma resposta holística e equitativa contra a obesidade. Março 2021. Disponível em: https://www.recalibrarabalanca.pt

Instituto Nacional de Estatística. Proporção da população residente com 18 e mais anos com excesso de peso ou obesidade (%) por Local de residência (NUTS – 2013), Sexo e Tipologia de áreas urbanas; Quinquenal. [webpage]. Última atualização: 30-09-2020. Acedido a: 20-05-2022. Disponível em: https://www.ine.pt/xportal/xmain?xpid=INE&xpgid=ine_indicadores&contecto=pi&indOcorrCod=0010212&selTab=tab0

Programa Nacional para a Promoção da Alimentação Saudável. Uma proposta para combater a Obesidade. 28 de outubro de 2016. [webpage]. Acedido a: 21-05-2022. Disponível em: https://nutrimento.pt/noticias/uma-proposta-para-combater-a-obesidade/

Resolução da Assembleia da República nº195/2021 (8 de julho de 2021). Recomenda ao Governo medidas de prevenção, tratamento e combate à obesidade. Diário da República, 1ª série, 131, 28-30.

WHO European Regional Obesity Report 2022. Copenhagen: WHO Regional Office for Europe; 2022. Licence: CC BY-NC-SA 3.0 IGO

World Health Organization. Obesity. [webpage]. Última atualização: 09-06-2021. Acedido a: 20-05-2022. Disponível em: https://www.who.int/news-room/facts-in-pictures/detail/6-facts-on-obesity

World Health Organization. Obesity and overweight. [webpage]. Última atualização: 09-06-2021. Acedido a: 20-05-2022. Disponível em: https://www.who.int/news-room/fact-sheets/detail/obesity-and-overweight

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