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Cultura, Literatura e Filosofia

DESTA VEZ D. SEBASTIÃO NÃO REGRESSOU

António Francisco

Realizou-se ontem, pelas 14 horas, a 1.ªfase do Exame Final Nacional de Literatura Portuguesa, do 11.º ano de escolaridade. Para este exame estavam inscritos apenas 512 alunos. Considerando que raramente é feita uma avaliação da prova pela opinião pública, decidi dar espaço a algumas considerações na minha crónica. Assim, apresento uma breve reflexão, enquanto examinando da prova desta disciplina.

Recentemente, pelas redes sociais, vários alunos da disciplina de Português, de 12.ºano, criaram ondas humorísticas a propósito da linha orientadora do exame dessa mesma disciplina. Neste ano, o exame de Português foi trabalhado tendo por base, nos grupos de Educação Literária, o mito sebastianista em diversas obras literárias previstas no programa.

Relativamente à disciplina de literatura, considero que a prova era acessível, no entanto, identifico algumas falhas na divisão dos conteúdos. No Grupo I, para um bom começo, propunha-se a análise literária do poema «Erros meus, má fortuna, amor ardente», de Luís de Camões, havendo duas perguntas de carácter obrigatório e outras duas opcionais. O poema insere-se na temática da reflexão sobre a vida pessoal. Para um aluno que tenha frequentado a disciplina, a interpretação da composição era tarefa fácil, até porque, no meu entender, existem poetas mais complexos no programa da disciplina, cuja linguagem é mais subjetiva e levam a linhas de leitura mais diversificadas. No Grupo II, surgiu um excerto do conto «O Acidente», de José Rodrigues Miguéis. Desconhecia este autor e fiquei bastante agradado com a leveza e sinceridade das suas palavras. Destaco, neste âmbito, a existência de duas perguntas obrigatórias e duas opcionais, sendo uma delas relacionada à comparação entre a figura feminina na passagem textual e o quadro O Almoço do Trolha, de Júlio Pomar. Esta questão de associar textos a obras de arte tem surgido, recorrentemente, nos exames de literatura, estimulando não só o espírito crítico, mas também o domínio de «capacidades nucleares de compreensão e de expressão na modalidade escrita». No Grupo III, colocou-se uma proposta de explicação do título de uma das obras do módulo Romantismo, Realismo e Simbolismo, a partir da personagem principal. Tendo em consideração que eram oferecidas todas as obras do programa associadas a este módulo, facilmente os discentes selecionaram aquela que tinha sido trabalhada, abordando a temática solicitada.

Posto isto, o Grupo I corresponde ao 10.ºano e o Grupo III ao 11.ºano. O excerto do Grupo II não integra nenhuma obra do programa, sendo apenas um texto literário solto, em que é exigida a capacidade de análise desenvolvida ao longo dos dois anos da disciplina. Se, por um lado, esta prova permite «relacionar a literatura com outras formas de arte e outros produtos culturais da atualidade, descobrindo a especificidade da experiência estética e da fruição individual que dela decorrem», por outro lado, perde pelo facto de não permitir na totalidade «mobilizar para a interpretação textual os conhecimentos adquiridos sobre as características de textos literários de diferentes géneros», dado que foca apenas a poesia e a prosa, não havendo quaisquer referências ao teatro, género também integrante das Aprendizagens Essenciais e trabalhado no domínio da Leitura Literária. Desta forma, surpreendeu-me o facto de se privilegiar um excerto de um conto, integrante de uma obra não prevista no programa, em vez de um excerto de uma peça de teatro, constituidora das AE.

Pelo exposto, à exceção desta última questão, honro a excelente qualidade dos textos selecionados, bem como a temática do Grupo III, que permitia ao aluno selecionar a obra que lhe era mais conveniente, exigindo uma leitura pormenorizada da obra eleita, dada exigência do enunciado. Refiro que as questões estavam de acordo com o trabalho desenvolvido na disciplina e que me senti bastante à vontade para mobilizar os conceitos literários inerentes ao estudo da disciplina.

Veni, vidi, vici

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