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AMARANTINALIDADE – PEDRO CARNEIRO

Dália Carneiro

Falar dos “meus”, pode ser considerado egocentrismo, talvez de alguma forma o seja, porque o meu ego fica desmedido com o orgulho que tenho nas minhas raízes e gosto de mostrar ao mundo, quem foram, quem são e a importância que tiveram na siciedade, sobretudo na sociedade amarantina.


Tinha prometido uma viagem no tempo, assim, depois de vos ter dado a conhecer António Teixeira Carneiro, fundador do Jornal Flor do Tâmega, hoje, falaremos do seu filho e meu bisavô.

Pedro Carneiro, nasceu a 26 de Novembro de 1875, no Rio de Janeiro e veio para Portugal, com seus pais e irmãos, tinha então 7 anos.

Poderia ter tido uma infância normal, como qualquer miúdo da sua idade, mas sabendo nós que era o único ajudante do seu pai quando este decidiu fundar um jornal, fazemos contas e sabemos que tinha 11 anos, acabados de fazer, quando a Flôr do Tâmega, saiu à rua, a 1 de Dezembro de 1886.

Entre estudar, ajudar o seu pai na difícil tarefa de colocar um jornal semanalmente na rua, ajudar na tipografia e ainda ser uma especie de guardião dos irmãos mais novos, este homem, viveu uma vida dedicada ao jornal que posteriormente viria a herdar do seu pai e cresceu e aprendeu mais na escola da vida do que no Liceu de Amarante, onde estudou.

A tarefa dele não foi fácil, mas com persistência, resiliência, respeito, verticalidade, foi conquistando o seu lugar e era respeitado por todos.

Dirigiu a pulso o jornal fundado pelo seu pai, nunca fechou as portas a ninguém, todos tinham voz, só não permitia o insulto, pois dizia que quem chegasse a esse ponto, deixava de ter razão. Viveu momentos conturbados, difíceis… mas a Flôr do Tâmega estava atenta a tudo o que se passava em Amarante, e só não saía à luz do dia, quando o Tâmega decidia visitar as instalações da Tipografia, ou quando a censura o “empastelava”.

Mais um Carneiro de génio forte, o que ele achava que era certo, tinha que ser feito. Extremamente bondoso e admirado por todos, tinha um carácter forte e independente. Quem o olhasse, apesar da postura séria, conseguia vislumbrar-lhe a doçura e o sorriso no olhar. Dono de um senso de humor apurado e mordaz, nunca deixava nada por dizer e fazia-o com elegância. A minha avó, sua única filha mulher, herdou o seu senso de humor, as suas tiradas, eram épicas.

Este homem, pai de 7 filhos, Álvaro, Hernâni, Jaime, Artur, Ernesto, João e Maria da Luz, que havia já ficado com os irmãos mais novos a seu encargo, cedo enviuvou, e viu acrescidas às suas obrigações profissionais, com todas as dificuldades financeiras inerentes a um negócio independente e sério, o ter que gerir uma casa e tomar conta dos filhos.


Baixar os braços nunca foi opção, porque sempre quis honrar e levar em frente o negócio fundado pelo seu pai. Com a ajuda de todos, conseguiu-o. Sim, era um negócio familiar, irmãos, filhos, sobrinhos, netos, todos ali trabalhavam e davam o seu contributo para o seu crescimento. E era vê-los à volta das caixas tipo, tantos deles, sem estudos, a fazer trabalhos tipográficos, a compôr as páginas do jornal, sem um único erro ortográfico.

Há uma frase de um texto do também amarantino, António Teixeira de Queirós, dedicado ao meu bisavô, que diz “Com este homem aprendi muitas coisas: ser sereno com energia; exigente com tolerância; justiceiro com benignidade. Aprendi, ainda, que um jornal pode prestar o mais relevante serviço à terra e à comunidade e para que assim seja tem que ser independente, honesto, claro e objectivo. Nunca deve ser feito com grandeza. Só assim o jornal presta à terra e ao seu povo o melhor beneficio: instrui, educa, consciencializa.”

Nem precisava de ter escrito tanto, bastava-me esta frase, pois é uma definição de tudo quanto foi e a importância do “avô Pedro” na sociedade!

Pedro Carneiro, faleceu a 23 de Dezembro de 1959, não viveu rico de bens materiais, trabalhou arduamente para sustentar a família e manter a Tipografia e o jornal Flôr do Tâmega, que deixou como herança aos seus filhos e netos, e com eles ficou até 1976.


Há uma particularidade de Pedro Carneiro, que poucos conhecem, mesmo dentro da própria família, escrevia poesia, mas fazia-o sob pseudónimo. Há um poema dele, que esteve largos anos exposto nas paredes da Confeitaria da Ponte, confesso que não sei se ainda lá se encontra, mas deixo-vos aqui a fotografia, para que leiam e se deliciem com os versos do Miosótis!

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