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BUARCOS/BURACOS E O ESGOTAMENTO DO CITROËN AX

Regina Sardoeira 
Buarcos/Buracos será o tema inicial desta minha narrativa porque um tal anagrama decerto convirá, enquanto metáfora, à minha 12a Viagem Literária.
De facto, depois de 180 kms percorridos, desde Amarante, inutilizado o GPS por falta de bateria do telemóvel, fui, um pouco ao acaso, em busca do meu destino. Vagueei bastante, ao volante do meu Citroën AX de 1994, o fiel e competente companheiro destas minhas aventuras . Não havia placas suficientes para me conduzirem a Buarcos, e , por isso,  fui seguindo o instinto que me apontava a direcção Sul (mas seria, de facto, Sul?) a partir da Figueira da Foz.  Eis que, inopinadamente, entro numa estrada esburacada, no meio do que me pareceram quintas, e sentindo que aquele era o caminho, ou a direcção para uma estrada principal, fui em frente. Porém, após alguns metros descobri que cada centímetro daquela via era o início de autênticas crateras das quais não havia fuga já que, no restante pavimento  havia idênticos obstáculos. Vi uma ou duas estradas do lado esquerdo que, hipoteticamente, conduziriam a quintas ou pastagens ou algo do género. Não me convenceram a sair da estrada arruinada e, por isso, continuei, crendo que aquele chão assustador e impróprio para veículos fosse, em breve, dar lugar a uma estrada normal. Porém, tal não aconteceu. O pesadelo continuou, e, voltar para trás, não me pareceu opção já que tinha andado uns quilómetros e sofreria o mesmo impacto, desconhecendo as demais vias de acesso a Buarcos.
Continuei, portanto. Evoquei, de imediato, a regra de Descartes, no Discurso do Método, na explicação da qual imagina um homem perdido na floresta que encontra subitamente um caminho. Ele ignora se aquele é o percurso certo, mas segue-o, pois um caminho vai dar, invariavelmente, a um lugar onde poderá obter informações sobre a via certa para seguir e, desse modo, deixar de estar perdido. Se ficasse no meio da floresta e vagueasse em todos os sentidos ficaria cada vez mais perdido; seguindo um caminho qualquer chegaria sem dúvida a um destino concreto. (Claro que Descartes ilustra uma regra do seu método com este exemplo para se lançar, depois, noutras questões.)
Naquele meu percurso, decidi pôr em prática a regra cartesiana e então nem voltei atrás nem segui outros caminhos: fui em frente. O carro ressentiu-se bastante e eu também: as velocidades saltaram para o ponto morto várias vezes, o encosto do assento da parte de trás tombou para diante e eu sentia todo o corpo em profunda e patética trepidação.
Prossegui, pois, e à medida que andava, naquele “buraco com estrada” pensei na narrativa de Sophia de Mello Breyner, “A Viagem”, inserta no seu livro “Contos Exemplares”.
Vi-me como aquele casal que, num certo dia de Setembro, entra no carro, em direcção a um sitio maravilhoso de que alguém lhes tinha falado. Não sabiam onde ficava, não conheciam ninguém que lá tivesse estado : apenas sabiam que era um lugar extraordinário. Foram percorrendo a estrada, felizes, fruindo o meio do dia e a paisagem, até perceberem , após um cruzamento, que estavam perdidos. Decidiram sair do carro e dirigiram-se a um campo onde um homem tratava de uma horta. Viram água correndo por entre os agriões, viram a terra jucunda e aprazível e questionaram o agricultor acerca do caminho que haviam perdido. Satisfeitos, regressaram à estrada: mas o carro tinha desaparecido! Perplexos, subiram o ligeiro declive até ao campo; porém, embora a água corresse por entre os regos de terra, não encontraram o homem que não acorreu quando o chamaram.
Desceram, portanto, dispostos a fazer o resto do percurso a pé: mas a estrada tinha desaparecido. Continuaram, então, pelos campos, enquanto o dia ia esmorecendo, acharam e perderam outras coisas, uma casa, primeiro  com sinais de ser habitada, logo depois, transformada num monte de pedras, colheram amoras e guardaram- nas num lenço cujas pontas ataram, para comerem mais tarde. Mas quando abriram o invólucro, as amoras tinham desaparecido!  Os campos foram dando lugar a um bosque e,  como não havia outro caminho, seguiram em frente. Era já o crepúsculo, as sombras adensavam – se , eles angustiavam -se em crescendo, até que, já de noite, atingiram o limite do bosque. Para trás deles nada restava e à frente um estreito carreiro onde escassamente cabiam os dois. Seguiram-no, aterrados mas, em simultâneo com vestígios de esperança, crendo que mais para a frente encontrariam alguém e o caminho. Por fim já não havia carreiro, mas somente uma pequena plataforma, tendo do lado direito a parede lisa de uma escarpa e do outro o negrume de um abismo.
Não irei revelar o fim de A Viagem da Sophia, pois esta evocação não retrata o meu périplo pelos buracos de Buarcos: apenas me ocorreu, enquanto metáfora, para exprimir a minha ânsia de chegar a um sítio, agradável, como veio a revelar-se, mas oculto e barrado naquele percurso inverosímil.
Cheguei, enfim, a um troço da estrada mais ou menos transitável e logo a indicação da freguesia de Buarcos e a seguir, a Colina do Eléctrico, onde encontrei o meu alojamento.
Fiz esta viagem à Figueira da Foz, na esperança de poder partir dali para encontrar duas amigas que residem em Coimbra. Não estiveram disponíveis, por razões várias, e então só me restou usufruir do alojamento, da piscina-infinito e depois da praia.
A minha 12a Viagem Literária, a última deste ciclo, tal como havia decidido em Junho de 2019, completou-se e terminou de um modo nada auspicioso.
Dei comigo, por volta das 19:30 h , sentada na berma da auto-estrada, à espera do reboque, já que o velho e antigo Citroën AX, de 1994, foi aquecendo ao longo da viagem até acender a luz vermelha do termómetro.
Curiosamente, cumpriu, sem o menor deslize , muito mais de 6 000 kms por todo o país, em doze percursos de dois dias, cada um, durante os últimos três anos : decerto percebeu, na irmanação mecânica que estabeleceu comigo, que, sendo esta a última do plano, não era obrigado a mais.

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