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Cultura, Literatura e Filosofia

PALAVRAS LEVA-AS O VENTO

Soni Esteves

Como às palavras leva-as o vento, o melhor é rir com elas, porque para sério já basta a vida. E foi assim que meti as mãos na massa e pensei virar o bico ao prego a alguns provérbios, ditos, aforismos e coisas que tais, para construir um texto. Depois comecei a pensar que isto não era novo, tive medo de meter a foice em seara alheia e fiquei quieta a pensar no caso. Mas, como a pensar morreu um burro, resolvi pedir conselho ao meu mais que tudo.

Ora ele, primeiro partiu o coco a rir, depois torceu o nariz e disse que isso eram coisas do tempo da Maria Cachucha, já tinha sido chão que deu uvas, outros o tinham feito antes de mim, por isso era melhor eu tirar o cavalinho da chuva e pensar noutra coisa. A mostarda começou a subir-me ao nariz e perguntei-lhe se achava aquilo areia de mais para a minha camionete e ele disse que não era bem o caso, mas que não me esquecesse que pela boca morre o peixe.

Dito isto, fiquei de trombas e fechei a matraca. Então ele, vendo-me emburrada, perguntou-me se o gato me tinha comido a língua e eu fiz ouvidos de mercador. Então perguntou-me se eu estava a pensar na morte da bezerra e eu aproveitei para deixar cair duas lágrimas de crocodilo. Vai daí, ele viu que tinha metido a pata na poça e desata a pôr paninhos quentes: que eu fervia em pouca água, que era só uma opinião, patati patatá, se eu tinha vontade de fazer o tal texto, não deixasse para amanhã o que podia fazer hoje.

Quem corre por gosto não cansa, mas devagar se vai ao longe, e como aquela conversa me deixou com a pulga atrás da orelha, resolvi consultar o meu rebento, sangue do meu sangue, certa de que não me deixaria ficar mal. Não estava preparada para aquele balde de água fria, mas uma desgraça nunca vem só… que não, que aquelas tretas eram coisas do arco da velha, mais velhas que a Sé de Braga, e águas passadas não movem moinhos e coisa e tal. Perguntei se falava assim porque outros já o tinham feito antes de mim, se por acaso tinha receio de que eu fosse acusada de plágio. Mas não era isso, e argumentou que aquilo era de todos e de ninguém, portanto ladrão que rouba a ladrão tem cem anos de perdão. Disse-me que tivesse calma, porque cautelas e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém e que já nada era como dantes, até em abril já não havia águas mil; os gatos, mesmo escaldados já não tinham medo de água fria; que visse como os cães que não ladravam, por vezes, mordiam, e até as vozes dos burros chegavam aos céus, cada vez mais. Depois, fez uma pausa e, como quem quer a coisa, disse que tinha de ter em conta as alterações climáticas e os direitos dos animais, pois em maio já não se comem as cerejas ao borralho, as gaivotas estão em terra mesmo sem a tempestade no mar, agora valem mais dois pássaros a voar do que um na mão, e até a dona Xica já não pode atirar com o pau ao gato.

 Aí, subiram-me os azeites e disse-lhe que aquele argumento não tinha pés nem cabeça, que a dona Xica nem era para ali chamada porque era uma canção. Então ela, empinou o nariz, disse que fizesse como quisesse, que ficava por minha conta, entregue à bicharada, por assim dizer, mas que depois não chorasse sobre o leite derramado. Virou costas, deu às de vila Diogo, e deixou-me a falar sozinha. Eu devia ter imaginado que santos da casa não fazem milagres e ainda pensei em mandá-la pentear macacos, mas lembrei-me que o silêncio é de oiro, então resolvi meter a viola ao saco e ir pregar a outra freguesia.

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