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Cultura, Literatura e Filosofia

AMARANTINALIDADE: O COVELENSE

Dália Carneiro

Dizer que a Flor do Tâmega, é, melhor será dizer, foi, a história de Amarante, pois nas suas páginas se relatava tudo o que acontecia no concelho, não é um erro, nem sequer vaidade exacerbada pelos meus, que dela fizeram um orgão de referência.

Das informações de nascimentos, aniversários, casamentos, funerais, visitas de assinantes à redacção, às notícias do que ia acontecendo no concelho, do mais pequeno e insignificante, ao maior e mais emblemático acontecimento, tudo era relatado, de forma a levar a informação, a todos, dentro e fora do país. E eram tantos os que ansiosamente a aguardavam, semanalmente, para se “perderem” nas suas páginas. Não consigo deixar de ver o momento da recepção do jornal e a sua consequente leitura, como um momento de felicidade. Aquele cheiro de tinta fresca no papel, a ânsia de ler de fio a pavio, linhas e entrelinhas… a actualidade, a opinião, a crónica, a informação… o tanto que um pequeno grande jornal pode conter.

Disse-vos, na crónica anterior, que o avô Pedro, gosto de lhe chamar assim, escrevia poesia sob o pseudónimo de Miosótis. Nome curioso para um homem de garra, de força, de personalidade vincada. Soa um pouco frágil, pela delicadeza da flor, mas quando busco o significado da flor e me deparo com “significa recordação, fidelidade e amor verdadeiro”, percebo o porquê. Oferecer-te-ia miosótis, avô Pedro!

Também sob pseudónimo e durante anos a fio, escreveu nas páginas da Flor do Tâmega, outro Carneiro e é sobre ele que vos quero falar hoje.

Dele, lembro-me do olhar meigo e doce, do carinho com que me tratava, da sua aparência calma e afável e de uma profundidade no olhar, tantas vezes vago, que hoje, se calhar, consigo entender.

Ernesto Carneiro, o tio Ernesto, filho do avô Pedro, que passou a sua vida na Tipografia, entre as caixas tipo e a Minerva de pedal e que, durante anos a fio, escrevia nas páginas da Flôr do Tâmega, a Gazetilha Amarantina, sob o pseudónimo de Covelense.

A Gazetilha, é como sabem um género literário, poesia satírica, e ele, era mestre nesta arte, os leitores esperavam ansiosamente pelos escritos do Covelense, porque através deles, alertava sobretudo para os problemas de Amarante.

Quando, hoje, eu pego no livro “Gazetilha Amarantina”, uma edição póstuma, com a compilação de alguns dos seus escritos, e vejo um texto, datado de finais de 1954, intitulado “O Turismo e o seu funeral”, onde leio,

” Lentamente vai caindo
O que se ia discutindo
Sobre a zona de Turismo,
Tudo aqui cai em desgraça

Mas enfim, onde se encerra
O amor à nossa Terra
E seus Homens onde estão?
Para quê arredar pé?
Para a frente é o que é
Com tão grande projecção.

Pois confesso… e francamente
Nesta terra há pouca gente
Que o bem da terra procura
…”

Só consigo pensar na actualidade dos seus escritos e questionar, não a mim, porque eu vivi de perto e com consciência, a actualidade, mas a muitos Amarantinos, se já desde 1954 se questionava o Turismo em Amarante e o que não era feito, onde andámos nós até há poucos anos atrás?!

Hoje, o Tio Ernesto e tantos como ele que amavam incondicionalmente Amarante e que bravamente a defenderam, onde quer que estejam, estão felicíssimos.

Hoje, o Turismo em Amarante é uma realidade.
Hoje, Amarante vibra, Amarante é cor, Amarante é vida!
É caso para dizer, que, hoje, já há gente que o bem da terra procura!

Há neste livro, “Gazetilha Amarantina”, do Covelense, escritos absolutamente deliciosos…

 

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