Lifestyle

LONGE

Regina Sardoeira
venho de longe
(e vou para longe)
 o perto nada me diz
por ele desvairo
por ele me arrasto
por ele rodopio
em circunvoluções de inépcia
***************************************
sim venho de longe
das longínquas estrelas
(talvez desvanecidas)
dos fundos oceanos
(decerto enegrecidos)
do alto das montanhas
(se calhar mergulhadas
em névoa entretecida)
****************************************
o perto
não tem poder para agarrar-me
nele me vou perdendo
(sombriamente)
como um eco de mim
um simulacro de rosto
uma sombra
uma esfinge
*******************************
vou para longe
nessas sendas ignotas
(até de mim própria)
em desvios agrestes
por rochedos inóspitos
e areias movediças
arrastarão meus passos
o perto
causa-me náuseas
trepido de ansiedade
bocejo de angústia
(o perto)
tem o travo das lágrimas
e o gosto do sangue
e arde
e dói
como espartilho gasto
*******************************
venho de longe
(porque sou de longe)
vou para longe
(porque é lá que pertenço)
e quando estou perto
(neste perto de aqui)
é o longe que anima
os meus passos
de agora
***************************

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Fica a saber como são processados os dados dos comentários.