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Cidadania e Sociedade

SOMOS TODOS PROFESSORES?

Estamos a iniciar um novo ano letivo e, mais uma vez, assistimos às vozes críticas e mesmo zangadas a propósito da falta de professores aqui e ali, nesta ou naquela disciplina. Este ano, essa discussão assume outra dimensão, não só porque essa falta não é de hoje e se foi acentuando, mas sobretudo porque o governo, numa tentativa desesperada de anular o problema, prepara medidas questionáveis para uns e muito preocupantes para outros.

À semelhança do que acontece com as alterações climáticas, vocifera-se a mesma verdade “não foi por falta de aviso”. Apesar disso, os efeitos dos erros, das medidas avulsas, ou da falta delas, estão à vista de todos. E então é ver os governantes com arranjos de última hora: umas toneladas de areia numa praia, um pontão noutra, as habituais promessas de ajuda para quem tudo perdeu num incêndio… mas não fazem mais do que correr atrás do problema, sem lhe antecipar soluções. Ora, é isso mesmo que no ensino está a acontecer.

Durante anos, o professor foi matéria descartável, usado quando necessário e dispensado na primeira ocasião. Durante anos, assistimos ao esvaziar de direitos, ao incremento de políticas que ajudaram a depreciar a sua função, a sua imagem, a fomentar a divisão da classe. Primeiro havia os agregados e os efetivos, depois os contratados e os de carreira e dentro destes novas divisões. Até se inventou uma espécie de casta superior, a dos professores titulares, embora tivesse durado pouco. Sempre ouvi a máxima “dividir para reinar”, mas neste caso tem sido dividir para não pagar. O processo de avaliação docente é ridículo e injusto, não serve senão para travar a progressão na carreira, como todos sabemos; o sistema de gestão das escolas é tudo menos democrático e alimenta, em muitos casos, as tensões nas escolas; a crescente burocratização do ensino acarreta para os professores um sem número de tarefas alheias à sua função e que lhe retiram tempo útil para as fundamentais; a precarização das condições de trabalho dos docentes contratados é arrasadora e et cetera… E no meio de todo este caldeirão, a opinião de uns quantos mal informados, de mal com os políticos, com função pública, ou com a própria vida, metem tudo num saco, sacodem e desatam a berrar que os professores são uma cambada de preguiçosos que não gostam de trabalhar e só querem férias.

Com tal cenário, quem quer casar com a carochinha? Claro que agora faltam professores, a classe está envelhecida, desgastada. As escolas precisam da vitalidade, do movimento, da leveza que os novos sempre trazem. Mas não existem, não em número que satisfaça as necessidades prementes. Que faz o governo? Pega no sapato roto e remenda! Então, vejo muita gente aflita com a possibilidade de termos gente formada em cursos que não de ensino a dar aulas, a serem professores.

Eu, quanto a isso, não estou assim tão preocupada. Comecei a dar aulas poucos anos após o 25 de abril, assisti à democratização do ensino, quando não havia professores para tanto aluno, para tanta escola em tanto lugar improvável. Vi, nessa altura, chegarem à escola arquitetos, engenheiros, nutricionistas, advogados… Alguns deles terão abandonado o ensino pouco depois, certos de que não era ali o seu lugar, mas outros, que bem conheço, ficaram até hoje. Posso até afirmar que entre eles estão dos melhores professores que conheci ao longo da minha carreira. E, pelo contrário, também conheci colegas profissionalizados, com cursos via ensino, que nunca foram bons profissionais.

Mas afinal, o que é necessário para se ser um bom professor? Diria que o fundamental é gostar de ensinar. Não defendo que ser professor seja um sacerdócio, uma missão, não acredito nisso, mas é fundamental ter bons princípios, ter uma boa formação científica e disponibilidade para aprender, sempre. Quanto à formação dita pedagógica, posso dizer que a minha terá ajudado, mas não terá sido, por certo, o mais importante. Digamos que bons conhecimentos teóricos nesse âmbito não são garante de boa prática. Sei que muita gente pensa diferente, terá tido outras experiências. Quanto a mim, se há muita coisa que me preocupa no ensino e na escola, coisas capazes de me tirarem o sono, esta não é com certeza uma delas, por isso apenas digo “seja bem-vindo quem vier por bem”.

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