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Cultura, Literatura e Filosofia

MANUAIS DIGITAIS: INOVAÇÃO OU ALUCINAÇÃO?

António Coito

Graças a Deus (ou não, porque o estado deveria ser laico e continua a apostar em feriados católicos), a democracia permite a confluência de vários pontos de vista. Para o nosso chefe de Estado, Marcelo Rebelo de Sousa, «os professores em Portugal são dos melhores do mundo», destacando frequentemente a difícil vida dos docentes, dado que é complexo lidar com «outras famílias que passam pela escola», para além das suas. No meu entender, a profissão é desgastante e cansativa, visto que são muitos jovens, provenientes de ambientes familiares diversificados, para instruir diariamente. Mas, quando se gosta da área de verdade, este não é o obstáculo, até porque, pode tornar-se um grande desafio. Creio que o obstáculo seja as condições de trabalho e a desvalorização diária que cada um destes profissionais é submetido. Sr. Presidente da República, lidar com a realidade do Ensino Superior é diferente das restantes!

            Há dúvidas? Então vejamos o que se passa nas salas de aula, atualmente. A título de exemplo (sendo bastando pragmático, aliás), acaba de começar mais uma aula de Português de 12.ºano. Uma turma de Línguas e Humanidades, com cerca de 30 alunos que, até prova em contrário, podem estar sujeitos à realização do Exame Final Nacional da disciplina. O docente tem 64 anos, com anos de serviço mais que suficientes para a reforma, e tenta de alguma forma evitar grandes penalizações. É certo que tem uma grande tarefa em mãos. Para ajudar no trajeto, está em voga o uso de computadores a substituir o manual da disciplina. Transição digital e manuais digitais são os termos associados a este processo, não é verdade?

            – É pois! É muito bom! Ainda por cima agora começou o Mundial, até dá jeito para ver os jogos em tamanho maior nos dispositivos oferecidos pelo programa Escola Digital (a não ser que não funcionem, não tenham sido entregues, ou, ainda, a internet da escola esteja em baixo).

            Deixando-me de brincadeiras, os efeitos destas experiências, a meu ver, estão a ser muito dubitativos. Se, por um lado, pensarmos que estamos no tempo certo de dar o salto digital e tecnológico na educação (acelerado com a pandemia da Covid-19) é evidente que são os jovens os primeiros a terem que ser educados nesse sentido, permitindo-lhes, à partida, uma maior literacia digital; por outro lado, podemos constatar que a sua aprendizagem poderá ter efeitos nefastos, dado que deixa de haver um contacto direto com o papel, podendo até, em última análise, os alunos perderem o hábito de escrever em papel.

            O Sr. Ministro da Educação, João Costa, sempre defendeu o avanço «com cautela» deste processo, mas, daquilo que tenho visto na minha realidade não houve cautela nenhuma! Os alunos deixaram de lidar com os manuais em papel – formato que sempre privilegiaram ao longo do seu percurso estudantil – e passaram a usar somente o computador ou tablet e plataformas digitais. Não teria sido melhor começar por um modelo híbrido? Continuo a defender que a tecnologia na educação deve ser encarada como um complemento e nunca como um meio de substituição. Estou curioso para assistir ao modus operandi nos anos letivos seguintes.

            Já agora, e a propósito de inovação, gostava de comentar o grafismo dos novos manuais escolares. Existem livros de secundário que quase parecem manuais de 1.ºciclo. Deveria ser escolhido um grafismo mais discreto, na medida em que à saída da escolaridade obrigatória, o aluno não será confrontado com bibliografia desta tipologia.

            Em jeito de conclusão, tal como Eduardo Lourenço, que faleceu há dois anos (aqui fica a minha homenagem), «não sei fazer outra coisa a não ser pensar», pelo que poderei dar-me por feliz enquanto conseguir passar para a escrita aquilo que me movimenta. Na verdade, as minhas antenas ainda são «primaveris»!

                                                                                                                                                                   In Proximum

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