Lifestyle

CHUVA

Regina Sardoeira 
Os dias de chuva são propícios à introspecção: toda a gente o sabe. Abrimos as janelas, de manhã, e o ar cinzento e opaco, aliado a um certo silêncio na natureza em letargo, fundem-se com a nossa pele,húmida e encrespada, e retiramo-nos para o aconchego do espaço seco e colorido da casa em busca de nós mesmos . Também temos necessidade desta imersão nas profundezas do nosso íntimo, da mesma forma que a terra se faz a coberta cinzenta de tesouros ainda por revelar. Somos natureza e logo, tal como ela, fora de nós, urge que nos deixemos penetrar pelos humores frios e líquidos capazes de engendrar novas descobertas, vindas depois.
Por isso, também gosto do Inverno, destes dias cada vez mais curtos, preâmbulo de noites cada vez mais longas, e de um certo silêncio por baixo do tumulto do homem em muitas labutas, um silêncio feito da voz inaudível da terra em aparente repouso. Irmano-me com a terra mater, afundo-me com ela no húmus vivificante e preparo-me para descobertas que virão.
O pensamento, este diálogo íntimo do eu com o eu, encontra no véu cristalino da chuva, na neblina que torna difusos os vultos das coisas, no ar agreste que arrepia a pele, a sua morada preferencial. E o pensamento é a nossa máxima prerrogativa de humanos.
Apetece falar baixinho e dizer muito poucas palavras para que nenhum ruído perturbe o fulgor oculto das imagens, tecidas no fundo do ser. Apetece permanecer quieto, enrolado em si próprio, de olhos fechados para que a vida de dentro possa integralmente cumprir-se.
Compreendo bem a hibernação de todos os animais que, chegado este tempo, reduzem ao mínimo as actividades exteriores e ficam nas tocas, vivos, é verdade, mas voltados para dentro. Tenho necessidade, tal como eles, de me fechar para o mundo de fora, entesourando pensamentos, sons, imagens, sem cuidar de nexo ou de organização, porque eles estão naturalmente lá, sem necessidade da minha intervenção e sairão para a luz em tempo oportuno. E lamento, tinha que vir o inevitável lamento, que os homens prossigam a sua frenética corrida para coisa nenhuma e se embrenhem em luminosidades externas urdidas na ilusão, em estranhas e desarmónicas sonoridades criadas para combater o medo que têm do escuro e percam a imersão em si mesmas para  que o Inverno é feito, afinal.
Quando chegar a Primavera, que tão pouco está no calendário e há -de anunciar-se em ínfimos sinais, apenas acessíveis a quem fez a hibernação interior em tempo oportuno, a raíz começará a emergir da semente fecundada e estaremos prontos para trazer, à luz dos dias claros e amenos, a obra já completa – mesmo que os olhos do mundo, perdidos em fúteis quimeras, não tenham poder para delas dar conta.

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