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Cultura, Literatura e Filosofia

A CELEBRAÇÃO DO NATAL E A DOR DA AUSÊNCIA DE QUEM JÁ PARTIU

Ana Ferreira

Aproximamo-nos do Natal. Tempo que me provoca uma forte ambiguidade de sentimentos.

É tempo de celebração do nascimento de Jesus e por isso tempo de felicidade, alegria, amor e de família. Mas também é tempo de dor, muita dor.
 Nesta quadra festiva, a dor da saudade de quem já partiu, agiganta-se. A nossa memória é “assombrada” pelas recordações de tempos vividos e partilhados com todos aqueles que amamos mas que, infelizmente, já partiram.
Relembro com muito carinho e saudade (aquela saudade que aperta o coração e nos inunda os olhos com lágrimas) os tempos felizes passados em casa da minha mãe. O Natal era, de facto, um tempo especial. Não pelas prendas que não recebíamos ( normalmente eram chocolates, rebuçados e em anos bons um brinquedo) mas por toda a “magia” que nos envolvia no Natal. Esta “magia” começava logo quando fazíamos o “pinheirinho de Natal”. Naquele tempo íamos, em família, buscar um pinheiro ao monte. Era uma alegria escolher o mais bonito! Depois, já em casa, lá o enfeitávamos, com os adereços de natal que tínhamos ( e que guardávamos de ano para ano).  A árvore era sempre igual! Fazia parte de nós e do nosso Natal. Construir o presépio era tão aprazível! O verdadeiro musgo que íamos buscar “fresquinho” trazia o cheiro do monte e da natureza para a nossa sala. A sensação de colocar, gentilmente, o Menino Jesus, nas palhinhas, como se de um bébé de verdade se tratasse!  O momento mais ansiado, era quando se ligavam as luzes, pela primeira vez, no nosso pinheiro de Natal. Lembro-me de me levantar da cama e vir para a sala admirar a beleza das luzes do pinheiro. Eram tão lindas!
Ficavam ligadas toda a noite, nesta noite tão especial.
Outra memória que me assola o coração, prende-se com a azáfama que vivíamos na cozinha! Tão bom! Adorava ser a ajudante da minha mãe. Fazer os bolos e “rapar” a bacia onde ficava a massa do bolo (quem nunca?)! Provar as filhoses acabadinhas de fazer e ainda a queimar na boca. As rabanadas com mel caseirinho! A aletria quentinha que nos aquecia a Alma. Brincar e jogar aos pinhões com os irmãos depois de jantar. Simplesmente estar em família e com a família. Sem grandes distrações, estávamos juntos, estávamos felizes!
Foram noites mágicas! Verdadeiramente mágicas.
Tudo era Amor!Tudo era Natal!
Recordo, com muita dor e saudade estes tempos, que foram e não voltam mais.
Desde 2005, que o Natal para mim nunca mais foi o mesmo. Já não há magia! Já não há azáfama na cozinha! Já não sou a ajudante da minha mãe!
Durante alguns anos, após a sua partida, faltou-me a coragem para fazer a árvore de Natal e o presépio. Faltou-me coragem para fazer as filhoses, as rabanadas, a aletria e os bolos. Não mais “rapei” a bacia da massa do bolo! Vivi sem Natal uns anos. Não conseguia lidar com a dor da ausência da minha mãe! Não sabia viver o Natal, sem ela.
Em 2011, nasceu a minha filha de seu nome Maria (tal como a minha mãe e sua avó). Começou assim a minha nova vida! Passei a ser MÃE (a melhor coisa que podemos ser na vida)! Em 2013, na companhia da minha filha e pelas mãos dela, fizemos a “nossa” árvore de Natal. Momento único de muita felicidade para ela e de catarse para mim. Foi o início da minha aprendizagem de como viver novamente o Natal. A nossa árvore ainda é a mesma. Todos os anos enfeitamos da mesma forma. O presépio ainda é o mesmo ( mesmo o S. José não “ter cabeça” em virtude da Maria o ter deixado cair ao chão no ano em que retomamos esta tradição). Todos os anos relembramos este momento e rimos à gargalhada.
Todos os anos, a nossa “estrelinha” é colocada no topo do pinheiro, pelas mãos da minha filha.
Voltei a ter coragem para  a azáfama na cozinha ( mas nunca como antes foi. Falta a minha Micas). Preparar os bolos, as filhoses, as rabanadas, a aletria quentinha com os quadrados desenhados de canela (tal como fazia a minha Micas)! Não consigo ainda “rapar” a bacia da massa dos bolos, mas a minha filha faz isso por mim! Procuro, todos os anos, voltar a sentir “a magia” do Natal, pela minha filha e por mim. Procuro que ela perceba que o Natal não são as prendas! O Natal são os afetos entre quem se ama, é partilhar momentos com a família e amigos, são as luzes da árvore, são as filhoses cheias de amor, é o recordar com saudade, quem já partiu.
 Para refletir:
Porque o Natal não são as prendas que damos ou recebemos. O Natal é família, é o Amor incondicional. São os afetos, a alegria de estarmos juntos, sempre!
 Não são os valores materiais que nos definem nem definem a nossa essência.
 A bondade, a gentileza, o caráter, a compaixão e empatia são a nossa melhor prenda para os outros.
Que a “magia” do Natal inunde os vossos corações, todos os dias do ano.

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