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Cidadania e Sociedade

UMA HISTÓRIA DE NATAL

Era uma vez uma velha vaca que vivia muito infeliz. Pertencia a um homem triste que procurava consolo no sofrimento que conseguia infligir, como se cada bordoada que desse na pobre vaca o fizesse sentir menos triste.

Um dia, a vaca ouviu-o dizer à mulher que no dia seguinte ia matá-la, pois já estava velha e nem à força de pancada conseguia puxar o arado. Então a vaca resolveu fugir. Esperou que o casal fosse dormir e meteu patas ao caminho.

A noite estava escura, mal dava para ver o carreiro, em contrapartida, todos os ruídos noturnos pareciam ampliados. Por entre eles, pareceu-lhe ouvir um lamento. A vaca, ainda que receosa, aproximou-se de uma moita, por lhe parecer que era dali que partia aquele som amargurado. Viu então um pequeno burro que a olhava de olhos assarapantados e orelhas muito espetadas. Ficou a saber que o burro tinha visto morrer o seu dono, um velhinho simpático que sempre o tratara bem. Os filhos do velhinho vieram enterrar o homem e levaram com eles a mãe, mas esqueceram-se da sua existência e para ali o tinham deixado abandonado à sua sorte. Nos primeiros dias ainda tivera o que comer, mas agora não lhe restava senão partir à procura de outro destino.

Está-se mesmo a ver no que isto deu, já vimos coisas parecidas acontecerem em outras histórias tradicionais, porque nestas, os animais dão-nos sempre lições de companheirismo e solidariedade. A vaca e o burro seguiram juntos. Ainda havia muita noite pela frente e eles começavam a acusar o cansaço. Parecia-lhes, contudo, que a escuridão já não era a mesma, fosse pela companhia, ou por uma estranha e tímida luz que vinha de cima. Não costumam os animais olhar para o céu, mas olharam daquela vez e viram uma estrela de cauda a brilhar lá bem no alto. E foi nesse desviar do olhar para cima que se deram conta, mais à frente, da existência daquilo que lhes pareceu um estábulo. Espreitaram, estava vazio, entraram, acomodaram-se e logo adormeceram.

O que a vaca e o burro não viram é que ao lado do estábulo havia um casebre onde vivia um pobre homem, solitário. Pareceu ao homem, por entre o sono, ter ouvido o ranger da porta do estábulo. Pegou na candeia de azeite e foi ver o que se passava. A vaca e o burro não viram o espanto do homem quando os descobriu, nem tão pouco deram conta de que este, silenciosamente, encheu de palha a manjedoura para que pudessem alimentar-se quando acordassem daquele sono que, por certo, era a sua maior necessidade, naquele momento.

O velho homem, contente por aquele inesperado encontro, deitou-se e logo voltou a entrar no sono. Pouco tempo depois, ouviu o cantar de um galo, e logo outro e outro (não é preciso dizer que o galo era o seu despertador, tal como o sol era o seu relógio). Achou estranho, porque lhe pareceu ter ainda muito sono para sossegar. Pelas frinchas das portadas percebia a chegada do sol, assustadiço, a enfrentar a noite ainda relutante na partida. Mas o que viu, quando abriu a porta, deixou-o maravilhado. Não era o sol, não, a luz que ali brilhava era da estrela que há dias se via brilhar no alto e que parecia ter descido e intensificado o brilho. Brilhava mesmo por cima do seu estábulo, inundando-o de uma luz quase transcendental.

O resto… já se sabe, o que não se sabe é que nesta história os primeiros a verem o Menino não foram os pastores. Esses, viu-os o homem, ao longe, a fazerem caminho naquela direção.

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