ADVENTO

Miguel Gomes O vento arrepia um pouco a noite. Os Clérigos erguem-se sem grande preocupação pelos tempos que se descem ou se sobem mediante a montra mais ou menos colorida. Por entre a escuridão perene de montras onde se compram pessoas pela suprema desnecessariedade, há luminosas escarpas onde se deitam cedo os estivadores dos sonhos, […]

ENXERTIA EM ÉPOCA DE VINDIMAS

Miguel Gomes As uvas que ficaram para o podador pendem mutiladas de ferroadas agrestes, da vida e das abelhas, ébrias também de zunidos que mais ninguém escuta. O acre odor das intrusas americanas encosta-se à tristeza de um Outono confundido, onde todos se queixam do queixume, sem permitirem ao azedume avinagrar na exacta medida do […]

ILHA

Miguel Gomes Sem qualquer surpresa, o dia escorrega da noite para a iluminada parte da terra, percorrendo sem grandes veleidades léguas de chão parando poucas vezes para escutar o que de nada sai quando a mediocridade e inocência teimam em falar. Fascina-me a inconstância meteorológica e os frutos que a terra vai parindo, seja fecundada […]

QUASE TUDO DE TODOS

Miguel Gomes A que lado da vida se encosta a tarde? Percorrerão os passos o caminho que os olhos tentaram adivinhar? Teríamos imensos destinos num simples sulco na mão? A que lado de mim se encosta a interrogação? Ardem-me os olhos e, no entanto, vejo como se fosse já amanhã e todas as urgências se […]

A SOLIDÃO MOLDA O QUE NOS ACORDA

Miguel Gomes A solidão molda-nos a companhia. Transporta-nos para aquilo que não desejamos transportar, apenas e só porque não nos sabemos caminho, nem caminhantes, apenas fugazes, esbaforidos, errantes. A solidão molda-nos a alegria. Como agora, quando a chuva bate no vidro e eu encho o peito, faço de conta que me escondo atrás do pinheiro, […]

A NOSSA MÃE

MIGUEL GOMES A nossa mãe é a melhor do mundo. Sei que sim, vejo pela minha. Jamais poderia imaginar-me descer de qualquer dimensão onde possa ter estado antes de regressar a este mundo, e vir ao mundo parido que não pela minha mãe. Ainda a tenho, a meu lado, quase lhe consigo ouvir ainda o […]

HOJE É DIA DE MUDANÇA…

Hoje é dia de mudança, hoje é dia de dar uma cara nova à revista que o acompanha há 5 anos. A BIRD Magazine continua a voar pelo ciberespaço, sempre com o objetivo de dar asas às opiniões dos seus cronistas que, dirariamente, escrevem para si, que está, aí, desse lado. Com mais de 3040 […]

INEXISTÊNCIA

MIGUEL GOMES A tarde vai-se cedo para que a noite de inverno, ainda que outonal, traga a matiz oblíqua do distante astro e me faça perder uns segundos a apreciar as partículas de pó que volitam no vazio, cada vez mais vazio, que permeia o que sou e o que me rodeia. No nada, há […]

ENXERTIA

MIGUEL GOMES As uvas que ficaram para o podador pendem mutiladas de ferroadas agrestes, da vida e das abelhas, ébrias também de zunidos que mais ninguém escuta. O acre odor das intrusas americanas encosta-se à tristeza de um Outono confundido, onde todos se queixam do queixume, sem permitirem ao azedume avinagrar na exacta medida do […]

“AD INFINITUM”

MIGUEL GOMES Ouço gemer, um ligeiro soluçar. A tarde quente, abafada, convida a passar o consciente pelas brasas, permitir à alma soltar-se um pouco e sorver vida.  Continuo a ouvir soluçar, abro a janela e nada que justifique o som vejo, apenas a paisagem ondulante de eucaliptos, campos arados e casas ao longe.  O soluçar, […]