Cultura, Literatura e Filosofia

EDUARDO LOURENÇO, FILÓSOFO PORTUGUÊS

Regina Sardoeira "Influenciado pela leitura de Husserl, Kierkegaard, Nietzsche, Heidegger, Sartre ou pelo conhecimento das obras de Dostoievski, Franz Kafka ou Albert Camus, Eduardo Lourenço foi associado de um certo modo ao existencialismo, sobretudo por volta dos anos cinquenta, altura em que colaborou na Árvore e se tornou amigo de Vergílio Ferreira. Nunca se deixou enfeudar, todavia, a qualquer escola de pensamento, já que, embora favorável a ideias de esquerda,
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UMA AVÓ, UMA CASA E AMAR(ANTE)

Soni Esteves [caption id="attachment_18255" align="alignright" width="212"] Ilustração: Joana Antunes[/caption] Vencedora da II edição Prémio Ilídio Sardoeira Escrevo porque leio e leio porque vivo, porque preciso fazê-lo, desde sempre. Primeiro para aprender a decifrar os textos, depois para aprender a decifrar o mundo e, tantas vezes para aprender a decifrar-me a mim. Depois, só depois, veio a escrita. Como se fosse um passo mais, um outro modo de me arrumar no
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ADVENTO

Miguel Gomes O vento arrepia um pouco a noite. Os Clérigos erguem-se sem grande preocupação pelos tempos que se descem ou se sobem mediante a montra mais ou menos colorida. Por entre a escuridão perene de montras onde se compram pessoas pela suprema desnecessariedade, há luminosas escarpas onde se deitam cedo os estivadores dos sonhos, nos seus apartamentos de cartão com camas de jornal e tectos de velhos cobertores que
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A LUA E A NOSSA IMPOTÊNCIA DE CONHECER O TODO

Regina Sardoeira Uma destas noites (para ser exacta, e devo sê-lo, foi na sexta-feira, dia 19, às 22 horas), vi a Lua. À minha frente, um pouco acima do horizonte, justamente onde o sol se põe, observei um pequeníssimo filamento dourado, em forma de c; mas estava deitada, com as duas pontas erguidas e o bojo paralelo ao horizonte. Olhei-a demoradamente, absorvi a posição, para mim insólita, pois nunca a
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O VESTUÁRIO, FACTO SOCIAL DA COMUNICAÇÃO

Regina Sardoeira "O mesmo* se pode dizer do vestuário, facto social da comunicação, que traduz a evolução da cultura, da sensibilidade, das técnicas, da inteligência dos produtores e da tolerância dos consumidores. A moda, entre liberdade e repressão, presta-se a todos os jogos da distinção do poder. O vestuário pode inscrever-se na primeira fila dos agentes da "civilização dos costumes" e da "civilização de corte", mas sem nunca se desprender
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VAMOS VENCER

Augusta Barbedo Cada manhã a Terra acorda a sonhar que a esperança vai vencer a nefasta guerra da destruição que está a assolar o mundo inteiro! Horas de incerteza, momentos amargos e trágicos que tentam vencer a nossa fragilidade, deixando-nos à deriva, sem rumo, para nos fazer perder a fé! Este mórbido inimigo só será vencido se todos nos unirmos, fazendo barreira, para que a vida possa continuar tal como
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CARTA AOS ESPECTROS VENERÁVEIS : REVISITAÇÃO

Regina Sardoeira Quando eu segredava à minha pena: «Tens que ferir! Ataca! Fende!», vi-a hesitar, encolher-se cobardemente como um verme pisado. Horrorizou-me essa visão. Como pode uma pena cobarde cumprir o papel a que eu destino todas as penas? E, com um trejeito repugnado, já lançava o falso estilete para muito longe de mim; porém, senti nos dedos uma tímida pressão. – Por favor, escuta-me! – suplicou ela, cheia de rubor.
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O QUE PENSAM OS SOBREIROS?

Anabela Borges Passam os dias. E o Outono é uma bruma esbranquiçada, requebrada de dourados. Lentamente as folhas caem e preenchem o chão de tonalidades – amarelos-castanhos-laranjas-vermelhos. E desse chão atapetado de sonhos orgânicos, a terra respira e trabalha, célula a célula, a (de)composição, formando o húmus: composto que há-de trazer de novo a renovação – Primavera. Detenho-me junto a um sobreiro. Passava por ali enquanto passeava os anseios de
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“O INFERNO SÃO OS OUTROS”

Regina Sardoeira "O inferno são os outros", frase lapidar de Jean-Paul Sartre, filósofo importante da designada corrente existencialista, cujo sentido decorre do sentimento de náusea (o absurdo da existência humana), no contexto da sociedade dos homens. A sentença é proferida por uma das personagens da peça de teatro Huis clos. Nela, duas mulheres e um homem encontram-se no inferno, condenados a permanecer para sempre juntos, “entre quatro paredes”. As três