Cultura, Literatura e Filosofia

AO HOMEM, AO ESCRITOR, AO POETA, AO AMARANTINO

António Patrício Numa viela sem nome que ligava o lugar dos Eirados à rua São Sebastião, saídos de uma casa rés-ao-chão e de uma só porta, ouviam-se os gemidos de uma criança, filho de mãe doente e condição humilde. Por entre os gemidos e com eles misturados ouvia-se, de quando em vez, um aiar de voz cansada e rouca que augurava pouca saúde. A iluminar tudo isto, uma luz amarelenta
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A NATUREZA A FUNCIONAR

Soni Esteves Hoje acordei com os pássaros. Acontece-me muitas vezes. Depois, confirmo o fiozinho de luz a espreitar pelas aberturas da persiana e fico a pensar se foram os pássaros que despertaram a madrugada, ou se terá sido ela a responsável por aquele extraordinário concerto. O sítio onde moro tem as casas a roubar a terra de uma antiga quinta que não conheci. Mas deve ter sido bonita e verde,
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CARTAS AOS ESPECTROS VENERÁVEIS

Regina Sardoeira Quando eu segredava à minha pena: «Tens que ferir! Ataca! Fende!», vi-a hesitar, encolher-se cobardemente como um verme pisado. Horrorizou-me essa visão. Como pode uma pena cobarde cumprir o papel a que eu destino todas as penas? E, com um trejeito repugnado, já lançava o falso estilete para muito longe de mim; porém, senti nos dedos uma tímida pressão. – Por favor, escuta-me! – suplicou ela, cheia de
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OS SÍMBOLOS ARTÍSTICOS DE AMARANTE, EU E MAIS ALGUNS

Regina Sardoeira  Falemos de arte, exploremos, tanto quanto possível, este tema, que nem sei bem se é um tema, antes uma actividade humana que transborda de uma fonte metafísica, de um fluxo divino, de uma região inomeável, de profundidades ignotas que o próprio artista desconhece e sempre desconhecerá. Não se cria um artista, não é possível que um artista aprenda a sê-lo numa escola, ou que a arte que dele
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LHÉNGUA MIRANDESA, LS ANCANTOS DE LA OUTRA

Alfredo Cameirão “Não é o Portuguez a única língua usada em Portugal… fala-se aqui também o mirandez”, screbiu José Leite de Vasconcellos an 1882, ne l lhibro “O Dialecto Mirandez”, la obra cun que l sábio le apresentou la Lhéngua mirandês al mundo, fai astanho 140 anhos. Parafrazeando l Mestre, poderemos tamien dezir que nun ye l pertués la sola lhéngua screbida ne l Bird Magazine, scribe-se eiqui, a partir d’hoije, tamien
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DESTA VEZ D. SEBASTIÃO NÃO REGRESSOU

António Francisco Realizou-se ontem, pelas 14 horas, a 1.ªfase do Exame Final Nacional de Literatura Portuguesa, do 11.º ano de escolaridade. Para este exame estavam inscritos apenas 512 alunos. Considerando que raramente é feita uma avaliação da prova pela opinião pública, decidi dar espaço a algumas considerações na minha crónica. Assim, apresento uma breve reflexão, enquanto examinando da prova desta disciplina. Recentemente, pelas redes sociais, vários alunos da disciplina de
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TEMPO

Regina Sardoeira Abrir livros antigos e sorver-lhes a magia amarelada é tarefa idêntica ao rebuscar das memórias icónicas, transparentes pelo uso e quase esfareladas. Que importa o passado se não há tempo? Que importa o presente se não há tempo? Que importa o futuro se não há tempo? Repetição tornada monocórdica, de propósito, porque é assim o tempo e não adianta querer prendê-lo por mais rigorosos que se hajam tornado
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SORTILÉGIO ALQUÍMICO

Regina Sardoeira A noite tem um movimento próprio mesmo quando nada se mexe e chama-nos a todos para um deserto líquido, onde flutuam embarcações, serenos mensageiros de outros territórios onde a luz esculpiu  memórias e mitos.  Eu sei (sempre soube) que a verdade não tinha qualquer poder, essa verdade que os corvos levantam na poeira dos trigais, se poeira houvesse, e enquanto escutávamos a voz irremediável de qualquer ente desabrido nas esferas
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O PODER DO OLHAR FILOSÓFICO

" (...) Ora, viver sem filosofar é ter os olhos fechados e nunca se esforçar por abri-los; e o prazer de ver todas as coisas que a nossa vista descobre não é nada comparado com a satisfação que dá o conhecimento das que se encontram pela filosofia; e enfim, este estudo é mais necessário para regular os nossos costumes e nos conduzir nesta vida do que os nossos olhos para
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O ÚLTIMO MENSAGEIRO

 Regina Sardoeira Havia montanhas por detrás da imaginação cansada, atirada  de uma para outra  janela, e só os cortinados espessos tiveram poder para suster os golpes do vento, nesse  dia túrgidos de folhas verdes, porque há muito a primavera ditava as suas regras de plena floração e só o rigor impreciso das nuvens violeta, por cima do  telhado, fazia temer  o recuo improvável do tempo.             Era a hora, e ele