Em Destaque Literatura

MUNCH

 Com a chuva a bater timidamente no vidro, abriu as persianas da casa que o habita. Serão poucos segundos depois dos primeiros, umas horas batidas no acolchoado dormido, o dia vai cavar-se lá fora onde os calcanhares, em invulgar caminhar, sulcaram aquilo que adivinho ser um talhão para futura plantação. A terra ali, aberta, liberta, por onde respiram as entranhas a deixar-se afogar pelas horas matinais do dia, o corpo
Em Destaque Literatura

FERNANDO PESSOA VISTO POR ROBERT BRÉCHON

Professor, ensaísta e lusófilo francês, Robert Bréchon é reconhecido como um dos principais especialistas em França na vida e obra de Fernando Pessoa. Robert Bréchon começou a aprender o Português aquando da sua estadia no Rio de Janeiro, cidade na qual desempenhou o cargo de diretor do Liceu Francês. Curioso da cultura portuguesa, em 1962, obteve o posto de diretor do Instituto Francês de Lisboa, funções às quais se acrescentavam
Em Destaque Literatura

ESTREITO SENTIR

 Todos (já) nos sentimos perdidos. Talvez porque sentir seja isto... tão de ontem e tão de hoje ao mesmo tempo. Porque ninguém se sentiu perdido. Todos estamos perdidos hoje. Por mais estabilidade que encontremos nas mais diversas vertentes, há sempre um lado mais desmontado. Há sempre uma complicação, um pequeno desvio que ocorre no nosso enquadramento tão alinhado do dia a dia. Às vezes tudo parece exagerado. O quão complicada
Em Destaque Literatura

PARA ONDE NOS LEVAS, TEMPO?

É domingo. Escrevo-te do passado. Hoje é sábado, mas os meus dedos viram as estrelas que serpenteiam quando voo e decidiram casar com o dia de amanhã. Talvez agora, no futuro, não sintas o frio que a noite traz, porque no teu corpo vivem as brasas de uma lareira recentemente apagada e nem o fumo, que ela teima em fazer crescer, te faz lacrimejar de saudade dum outro futuro. Sentado
Em Destaque Literatura

SILÊNCIO NA ERA DO RUÍDO

É o título de um belo livro de Erling Kagge, nascido em 1963, um dos grandes aventureiros e exploradores do nosso tempo, tendo sido a primeira pessoa a atingir, sozinha, o Polo Sul, após uma travessia solitária da Antárctida (sem comunicações) durante 50 dias. Tinha já chegado também ao Polo Norte, viajando cerca de 800 quilómetros pelo gelo do Árctico, sem qualquer apoio exterior. Em 1994, subiu ao Evereste, tornando-se
Literatura

DA FLOR DE JANEIRO NINGUÉM ENCHE O CELEIRO

Podia dizer que me encontro cheia de ânimo para o novo ano que começa. Mas não seria verdade. Não agora, que os dias são escuros e frios, que temporais infinitos agitam os corações do mundo. Eu nunca poderia sentir-me cheia de ânimo no mês de Janeiro, em nenhum mês de Janeiro dos que até hoje vivi (falo dos que tenho memória). Além do clima frio, do mês interminável, com dias
Literatura

A SAUDADE CABE-NOS NA MÃO

Pelo caminho para a escola havia de se passar por uma fila de casas que se comprimiam ao longo das portas e janelas rendilhadas, parecendo que alguém teria feito daquele aglomerado uma concertina em tamanho grande, comprimida, sem fôlego, à espera que por algum desígnio se conseguisse escapulir e expandir, libertando a sonoridade a que isso fora vetada.Tudo é permitido à imaginação quando se tem olhos de criança. À janela,
Literatura

ALVURAS DA ALMA

Branco. Gélido. Pela luz do dia, não te vejo. O que piso não é o que desejo. O que voa não é o que conheço. Será que, perto de estar longe, olhamos o mesmo céu? O meu espírito não sente o calor da saudade. Sinto apenas nada do que mais me faz sentir. Será que também sentes? O vazio dos dias brancos... Olho o céu sozinho no mundo. Vazio de
Literatura

A VÉSPERA DE AMANHÃ

Resta o sabor das filhoses impregnado nas traves de madeira. Os barrotes negros da fuligem que ascende ao tecto à boleia das brasas incandescentes, misturadas com sonhos de outrora, nas lágrimas frias invernais das memórias de agora. As telhas encavalitadas sobre e sob o musgo dos invernos, esquecidos no ressoado daquilo que o céu não quis, parecem a metáfora para o que não queremos acrescentar, o adjectivo que irá encapelar